Chabrol, que assina o roteiro ao lado de Cécile Maistre, recria a história, atualizando-a para os dias atuais e inventando novos personagens. Seu triângulo amoroso é formado pela moça do tempo Gabrielle Deneige (Ludivine Sagnier), o consagrado escritor Charles Saint-Denis (François Berléand) e o jovem e rico herdeiro Paul Gaudens (Benoît Magimel).
Gabrielle é a moça dividida entre estes dois homens. Na verdade, ela se apaixona mesmo por Charles, um escritor de sucesso, sempre na mídia, como Paulo Coelho. Casado com uma bela italiana (Valeria Cavalli), ele não se furta a aventuras fugazes, das quais só sua editora, Capucine (Mathilda May), costuma tomar conhecimento – eventualmente, acobertando-as.
O cínico escritor, no entanto, não quer mais do que uma curta temporada ao lado da menina, que está em plena ascensão profissional na TV. Quando ele lhe dá um fora sem dizer uma palavra, simplesmente trocando a fechadura do apartamento onde se encontravam, Gabrielle fica arrasada. Entre a dor e a raiva, decide aceitar impulsivamente o convite de casamento do mauricinho Paul, que não pára de assediá-la.
A vida ao lado de Paul garante-lhe todas as comodidades que o dinheiro pode comprar e que a jovem, filha de uma mãe trabalhadora e de classe média (Marie Bunel), nunca pôde alcançar. Viver na alta roda, comandada por uma sogra (Caroline Silhol) que tolera mal a origem social da nora, no entanto, tem seu preço. Gabrielle sente-se como um pássaro sufocado numa gaiola de luxo, também por conta do ciúme obsessivo do marido.
Os desdobramentos da situação imprimem um tom mais duro a uma história que, até então, era conduzida dentro de um cinismo zombeteiro. Como Jean Renoir e Robert Altman, Chabrol nunca perde uma chance de escancarar a falsidade das convenções sociais. Pesa um pouco contra a história a escolha de sua protagonista, Ludivine Sagnier, nunca muito convincente como a garota dúbia que se espera que seja. No geral, o filme se salva, inclusive dela, por conta da solidez da visão de Chabrol – que é um tanto amarga sobre a contemporaneidade, mas não se pode dizer que não verdadeira.
