E que paciência isso exige. Murphy pode ser talentoso, mas tem patinado em roteiros pobres, em torno de personagens como Dr. Doolittle e Professor Aloprado (que aliás pertencia a Jerry Lewis). Norbit, vamos combinar, não acrescentou muito à sua carreira. A melhor coisa que ele fez nos últimos tempos foi mesmo a voz do burrinho de Shrek, aliás, outra franquia precisando urgente do oxigênio da novidade.
Dirigida pelo mesmo Brian Robbins de Norbit (o que era mau sinal), com roteiro de Rob Greenberg e Bill Corbett, O Grande Dave tem um mérito indiscutível – evita quase sempre as piadinhas escatológicas que são freqüentes nos filmes de Murphy. Aproveitando a discussão moderna sobre esgotamento de recursos naturais, inventa-se um grupo de minúsculos alienígenas que vêm para a Terra em busca de água. Todos estão alojados dentro de uma espaçonave em forma humana, ou seja, à imagem e semelhança de Eddie Murphy, seu capitão.
Tentando se fazer passar por um humano qualquer, o homem-nave assume o nome esdrúxulo de Dave Ming Cheng. Em vários momentos, é até divertido observar o tumulto dentro dele, com um monte de alienígenas dando palpites em tudo o que seu veículo deve dizer ou como se comportar. Os cenários e uniformes dessa tripulação, aliás, têm tudo a ver com Jornada nas Estrelas e outras sagas espaciais, que esta comédia ironiza sempre que pode.
Sem saber nada sobre a Terra, Dave luta para não chamar a atenção. Coisa difícil por causa de seu escandaloso terno branco, super fora de moda, e mais ainda depois que quando sai sem nenhum arranhão de um violento atropelamento cometido por Gina Morrison (Elizabeth Banks). No papel da moça bonita e bobinha da vez, Gina, que é viúva e mãe de um garoto (Austyn Myers), mostra uma quedinha por ele. Problema é que, lá dentro da nave, a oficial número 3 (Gabrielle Union) se animou a lutar pelo coração do capitão.
O humor aqui está nas comparações entre o mundo dos terráqueos e o dos alienígenas. Lá dentro da nave, todo mundo, aliás, está deixando de lado a frieza do planeta em que viviam para entrar no Orkut, sintonizar em musicais da Broadway e partir para comportamentos e vestuários mais desinibidos – como faz o oficial número 4 (Pat Kilbane), para desespero do rígido número 2 (Ed Helms), a mais completa tradução da linha-dura militar da América atual. (Comentário político de Eddie Murphy?)
Resumo da ópera – se não é genial, esta comédia até permite alguns sorrisos. Pra melhorar, só se o ego de Murphy se reduzisse também. Mas pra isso ele teria de nascer de novo. Quem sabe num outro planeta.
