Indicada ao Oscar de melhor atriz em 2008 pela comédia Juno, Ellen Page pode ser vista numa situação dramaticamente diferente neste drama bastante pesado e baseado em fatos reais.
Neste filme feito um ano antes de Juno, Ellen interpreta Sylvia Fae Likens, uma adolescente que foi vítima de brutais maus-tratos, causando sua morte. Ocorrido no estado de Indiana, em 1965, o crime tornou-se um dos mais escandalosos casos policiais da história judicial norte-americana.
Numa narração post mortem que lembra o recurso usado em Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, é a própria Sylvia quem conta sua tragédia. Ela e sua irmã caçula, Jennie (Hayley McFarland), são filhas de um casal de artistas ambulantes, que costumam deixá-las temporariamente aos cuidados de outras pessoas quando viajam a trabalho. Numa dessas situações, deixam as garotas sob a responsabilidade de Gertrude Baniszewski (Catherine Keener). Uma guardiã que, como todas que a antecederam, os pais não conhecem.
Mãe solteira de sete filhos de pais diferentes, nenhum deles lhe dando qualquer assistência, e explorada por um namorado mais jovem (James Franco, de Homem-Aranha), Gertrude vive em dificuldades financeiras. Por isso aceita cuidar das meninas a troco de dinheiro.
Um problema sério é a saúde mental da mulher, que toma remédios mas, mesmo assim, tem surtos de depressão e agressividade.
Quando a filha mais velha de Gertrude, Paula (Ari Graynor), engravida de um homem casado, alguns adolescentes ficam sabendo. Paula passa a acreditar que Sylvia é a culpada pela divulgação de seu estado – que ela mesmo nega e esconde da mãe.
Meiga, quieta e angelical, Sylvia desperta um ódio intenso tanto de Paula, quanto de sua mãe – que parece ver em sua jovem hóspede o símbolo de tudo aquilo que ela nunca poderá ser.
Pouco a pouco, o inferno começa para Sylvia, que é trancada no porão da casa e submetida a todo tipo de espancamento e violência física, levando a menina à morte.
O diretor Tommy O’Haver (de Uma Garota Encantada) encontra uma forma de retratar este caso assustador de forma realista, encontrando maneiras de o filme não se tornar visualmente insuportável. Nem por isso o calvário de Sylvia é menos angustiante e desesperador.
Alternando, em montagem paralela, cenas do julgamento de Gertrude, O’Haver gradativamente expõe outro aspecto grave – a participação de crianças e adolescentes, filhos e vizinhos da criminosa, no suplício de Sylvia. Assim fazendo, coloca em primeiro plano a responsabilidade coletiva de uma comunidade interiorana, religiosa e fanática no limite da selvageria.
