Intuindo o momento histórico que flagrava com sua câmera, o diretor Renato Tapajós capturou não só o início do fim da ditadura como o nascimento de novas lideranças, germe de um novo partido, ambos hoje no governo do País: Luiz Inácio da Silva (à época, sem ter ainda incorporado ao nome o “Lula”, seu apelido dos tempos de fábrica) e o Partido dos Trabalhadores.
Por isso, Linha de Montagem, que chega às telas em versão renovada, tem o peso de um documento que fornece elementos para uma reavaliação do presente, quando a normalidade democrática é fato incontestável. Estão no filme imagens das concorridas assembléias, às vezes com 100.000 operários, em que o carisma de Lula se desenvolve e estabelece. É visível ali o germe de um processo de liderança forjada ao sabor das urgências do momento.
Naquele momento, Lula não era ainda o Lula de hoje. Por isso, o documentário de Tapajós tem tanta importância, ainda mais por não se deter exclusivamente na pessoa do ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Tapajós flagra o processo coletivo ocorrendo naquele momento. Impossível não sentir a vibração disso nestas cenas que, por muito pouco, não se perderam.
Lançado pela primeira vez em 1982, época em que havia censura, o documentário foi exibido publicamente pela primeira vez justamente na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, onde cabiam cerca de 2.000 pessoas. No meio da sessão, chegaram agentes da Polícia Federal, com ordens de apreender o filme – que não tinha um certificado de censura. Depois de uma negociação entre os policiais, Lula, Chico Buarque de Hollanda (autor da trilha do filme) e o prefeito de SBC, Tito Costa, decidiu-se que o filme iria sendo entregue, rolo a rolo, às autoridades. Ao invés disso, saiu pela janela diretamente para a sacola de uma faxineira, Maria Elicélia Feitosa da Silva, a Zelinha, que o encaminhou para outras mãos – como ela conta em outro documentário, Peões, de Eduardo Coutinho que, aliás, dialoga exemplarmente com este trabalho.
Depois dessa saída clandestina, uma cópia do filme foi depositada, em 1984, na Cinemateca Brasileira. Por quase 20 anos, ali permaneceu, sem condições ideais de climatização, o que acarretou bolor e quase pôs o filme a perder. Em 2007, uma verba de R$ 860.000,00 da Petrobras permitiu sua restauração, um trabalho de monge que exigiu o tratamento individual de cerca de 98.000 frames, além de um processo de transfer para película.
