Ben Kingsley possui uma visão mais acurada do personagem que interpreta do que Coixet da história que conta e onde poderia chegar. Ele é David Kepesh, uma espécie de celebridade literário-acadêmica com programa no rádio e aparições esporádicas na televisão. Um figura típica do universo de Roth, um homem de meia idade e decididamente egoísta, que vê no prazer sexual a forma de passar seus últimos anos.
Sua mais nova conquista é Consuela, vivida por Penélope Cruz – um objeto do desejo exalando a juventude que no corpo de Kepesh deixou de existir dando lugar à decadência. Ela, porém, vê no professor muito mais – um homem com quem gostaria de viver uma relação sólida. Ele é incapaz de se comprometer com alguém além da cama. Por isso, visitas periódicas de sua antiga amante Carolyn (Patricia Clarkson) parecem normais para ele.
Já é mais que um consenso que uma boa adaptação literária para o cinema não é aquela que se mantém fiel ao livro, mas o filme capaz de captar o tom e as idéias do original. Fatal se apóia numa obra que tem uma pegada tão forte que, quando se vê o filme, não se reconhece muito da força de Roth. Há diálogos e passagens quase literais na tela – o problema no filme não está na adaptação, mas na forma como o livro é interpretado.
Kepesh e Consuela vivem um relacionamento conturbado, principalmente porque ele não sabe lidar com o que está acontecendo. Há mais de um animal agonizante no livro – tanto na forma metafórica quando na real. São eles que fazem o protagonista se lembrar da fragilidade da existência. O roteiro, de Nicholas Meyers (o mesmo que assinou a adaptação de A Marca Humana, também de Roth, lançado no Brasil como Revelações), parece correr numa via paralela ao texto do autor, com medo de o tomar para si.
O notado esforço de Penélope Cruz não encontra um diálogo com o excessivo egoísmo de Kingsley e seu personagem. Há uma bela cena no filme – vinda do livro – quando finalmente vem à tona a fugacidade da existência do corpo. É um momento quase no final do filme que deveria servir para reflexão e provocação, mas a resolução que Coixet e Meyers dão à história implora um sentimentalismo barato que mesmo um animal agonizante não merece.
