Mesmo com a parceria do experiente roteirista Bráulio Mantovani, que participou da escrita de Cidade de Deus, Tropa de Elite e Linha de Passe - três filmes candentes sobre a realidade brasileira contemporânea –, o que mais incomoda é a falta de organicidade de Última Parada 174.
A sucessão de eventos trágicos que molda a trajetória perdida de dois meninos (os bons atores Michel Gomes e Marcello Melo Jr.) flui de maneira atravancada, forçada, dramaturgicamente inconsistente. A personagem fundamental da mãe de um dos meninos não tem, igualmente, um desenvolvimento dramático à altura da ótima atriz Cris Viana. Assim, o filme perde credibilidade e, o que é pior, conexão emocional com o público - o que seria, justamente, sua própria razão de existir.
Com tanto material explosivo, quanto assassinato de uma mãe, abandono de crianças, seu engajamento no crime e na violência, a chacina de meninos de rua diante da igreja da Candelária (ato real ocorrido em julho de 1993) e outros que sustentam o enredo, Barreto não se mostrou o diretor ideal para trazer à tona elementos que complementariam a história tão bem desenhada no documentário Ônibus 174, de José Padilha – obra que fecha seu foco na tragédia do ônibus seqüestrado por Sandro, que era mesmo um sobrevivente do massacre da Candelária. Uma história real assim forte dificilmente comportaria uma recriação melhor na ficção. Foi o que aconteceu.
