03/06/2026
Documentário

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Em 2003, as fotos de presos iraquianos de Abu Ghraib sendo torturados e humilhados chocaram o mundo. Este documentário premiado em Berlim ouve os militares que praticaram tudo isso.

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Vencedor do Oscar de documentário em 2004 com Sob a Névoa da Guerra, uma longa entrevista com o ex-secretário de Defesa Robert McNamara com revelações bombásticas sobre a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, o cineasta norte-americano Errol Morris investe em outro tema incômodo neste novo trabalho premiado.

Grande Prêmio do Júri (Urso de Prata) no Festival de Berlim 2008, este documentário investiga os personagens e os motivos por trás do grande escândalo de Abu Ghraib em 2003, quando foram divulgadas as fotos de detidos naquela prisão iraquiana em situações de tortura e humilhação.

Várias dessas fotos, que correram o mundo, traziam igualmente os militares norte-americanos responsáveis pelos crimes, aparentando diversão e desprezo pelos prisioneiros. O documentarista ouve vários deles, que foram processados e presos. Como a soldado Lynddie England, vista em fotos puxando prisioneiros por uma coleira de cachorro.

Um dos depoimentos mais explosivos é o da coronel Janis Karpinski, a mais alta patente punida no episódio, a única acima de sargento. Ex-general encarregada das prisões no Iraque e rebaixada depois do inquérito em torno de Abu Ghraib, ela não se nega a criticar seus superiores, que chefiavam as operações no Iraque, chegando até ao ex-secretário da Defesa do governo de George W. Bush, Donald Rumsfeld. Segundo Karpinski, todos os abusos aos presos foram praticados sem o seu consentimento, mas com a conivência de todos os demais comandantes do Iraque, além do próprio Rumsfeld. Ela seria, portanto, apenas um bode expiatório.

Outro depoimento importante é de Brent Pack, oficial encarregado da investigação em torno das fotos de Abu Ghraib. Além de dar detalhes sobre o minucioso trabalho técnico deste inquérito, ele comenta o dano irreversível que o escândalo produziu sobre a imagem dos EUA, além de questionar a própria legitimidade de sua intervenção no Iraque.

Fora isso, a entrevista de Pack abre caminho para uma das discussões mais inquietantes do filme, já que, além de praticar os abusos, os militares se preocuparam em fotografá-los. Vários outros integrantes das tropas norte-americanas, inclusive que não atuavam no presídio, pediam cópias dessas fotos, que circularam até serem denunciadas à imprensa. Um ato de sinistro voyeurismo, que o filme analisa, sem poder, é claro, encerrar a discussão.

Além das entrevistas, o documentário recorre a reencenações de várias das situações reveladas pelas fotos usando atores – o que torna diversas delas muito mais reais e impressionantes. Ainda mais se se pensar que nem todos os presos saíram vivos destas experiências lamentáveis.

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