A filha é Yilan (Faye Yu), uma chinesa radicada em San Francisco, divorciada e na faixa dos 30 e alguns. Com vida profissional resolvida, mas emocional nem tanto, ela recebe a visita do pai, o sr. Shi (Henry O). Na atmosfera educada deste apartamento, as conversas não saem do banal, enquanto o pai se esmera em preparar todo dia novos pratos para o jantar.
Há uma velha pendência irresolvida entre os dois, envolvendo a falecida mãe de Yilan e uma reviravolta na carreira do sr. Shi, um cientista perseguido durante a Revolução Cultural que, apesar disso, não deixou de simpatizar com o comunismo.
Shi é, aliás, um curioso observador das diferenças culturais de seus vizinhos norte-americanos e de outras nacionalidades. Por isso, apesar de seu inglês limitado, é capaz de manter diálogos incrivelmente sensatos e espirituosos com uma dupla de visitantes mórmons que entram no apartamento dispostos a transformá-lo em cristão.
Sua interlocutora mais freqüente é uma senhora iraniana (Vida Ghahremani). Como ele, ela fala mal inglês – mas esta é a única língua que compartilham. Em comum, eles têm igualmente serem estrangeiros nos EUA, a idade e os problemas com os filhos. Assim, ajudam-se além das palavras.
Mesmo entre pessoas da mesma família e nacionalidade, dizer o que é preciso para o entendimento não é simples. Falar com a filha requer atravessar não uma, mas várias pontes de incompreensão acumulada. Além do mais, o sr. Shi tem um ponto de vista peculiar sobre o que seja respeitar a independência da filha adulta. Para ele, a qualquer tempo é seu dever ajudá-la a ser feliz, o que ele claramente percebe que não é.
Baseado em contos da escritora chinesa Yiyun Li, Mil Anos de Orações tem um título que remete a uma fábula chinesa, não exatamente a um sentido religioso. É um exemplar de um humanismo possível, habitado por pessoas comuns, nem heróicas nem niilistas. E, ao falar das trocas entre pessoas de nacionalidades diferentes, dado fundamental da formação dos EUA – assim como do Brasil -, não está tratando de tema banal. A era Bush, felizmente no fim, privilegiou a intolerância com os diferentes, os estrangeiros, os de outra religião, como resposta ao medo depois do 11 de setembro. Este é o tipo de filme para as pessoas voltarem a pensar na inevitabilidade de uma convivência fraterna entre os desiguais que somos todos.
Vencedor da Concha de Ouro no Festival de San Sebastian 2007, além do prêmio de melhor ator para Henry O, Mil Anos de Orações está sendo lançado simultaneamente com outro filme de Wang, A Princesa de Nebraska - que tem um clima mais acelerado e tecnológico para retratar os complicados relacionamentos da jovem (Ling Li), outra chinesa radicada nos EUA.
