A câmera do filme, sempre colada na pele de Sasha, coloca-a em primeiro plano o tempo todo, mas isso também não revela o seu mistério. Ninguém sabe o que Sasha sente e pensa, por mais que ela seja vista o tempo todo. Esse aparente paradoxo, crucial nos dias de hoje, inspira o diretor Wayne Wang a criar o filme, que foi lançado na internet em outubro de 2008 procurando, justamente, a sintonia com estes tempos ultra-informatizados e filmados, de muitas imagens e torpedos trocados via celulares ou computadores, mas sem deslocar os sentimentos nem a natureza humana de lugar. As pessoas podem ter outros meios mais rápidos para se comunicar do que as demoradas cartas do século XIX, mas as necessidades vitais de um e outro tempo parecem não ter mudado tanto assim.
Não é uma proposta de outro século, porém, e sim muito deste atual a que faz a Sasha o norte-americano Boshen (Brian Danfort), em cujo apartamento a moça se hospeda. Boshen é o outro namorado de Yang, pai da criança de Sasha. E ele quer que Sasha desista da idéia de aborto, criando o filho junto com ele e Yang, quando ele puder sair da China. Sasha está indecisa. Ela ainda não sabe o que quer fazer da vida, nadando no enorme oceano de possibilidades descortinado pela sua juventude, em que nem tudo é cor, nem alegria, e muito é determinado pela vontade de experimentar.
Lançado ao mesmo tempo que Mil Anos de Orações, este filme forma um díptico sobre a vida emocional de nossos tempos, demonstrando a versatilidade do diretor sino-americano, que já dirigiu O Clube da Felicidade e da Sorte (93), Cortina de Fumaça e Sem Fôlego, ambos de 1995, em parceria com o escritor Paul Auster.
