Logo nas primeiras imagens, chama a atenção a fotografia primorosa de Luís Abramo (Proibido Proibir), aproveitando a luz natural que banha as paisagens mineiras e um jogo de luz e sombra ao estilo do pintor holandês Vermeer nas cenas no interior de um sobrado de estilo colonial. Mas este não é um filme que se deixa se subjugar pela beleza das imagens – há também uma história a ser contada.
O roteiro, também assinado por Conde, não entrega nada gratuitamente, revelando aos poucos a sua trama. Tudo começa com a chegada de um viajante misterioso (Alexandre Cioletti, de Batismo de Sangue) a um sobrado nos primeiros anos do século XX. Naquela casa mora Maria Santa (Débora Goméz), uma moça de quem todos esperam um milagre, pois parece ter poderes místicos.
A pessoa mais interessada na concretização do milagre parece ser Tia Emiliana (Berta Zemel, de A Casa de Alice), que se mudou para o casarão para administrar a fama de santa da sobrinha e prepará-la para aquilo que chama de “Grande Milagre”. Já o viajante vê a mulher como uma exploradora, que usa a moça para arrecadar dinheiro. Surge um embate, pois Maria Santa parece se apaixonar pelo moço.
O casarão, por sua vez, constitui um quarto personagem. Com sua construção imponente e o ar decadente, parece esconder histórias familiares, iluminadas por fachos de luz que atravessam algum buraco na parede ou na janela, enquanto a câmera fantasmagoricamente passeia pelos cômodos. Existe uma linha entre a realidade e o delírio, a sanidade e a loucura que parece se romper em Maria Santa dentro daquele sobrado.
Nesse filme, Conde se sai bem no árduo trabalho de levar para a tela o universo denso de Penna. Este, aliás, um escritor que muitos diretores gostariam de adaptar. Conta-se que Glauber Rocha queria filmar A Menina Morta, obra-prima do autor, publicada em 1954. Com a colaboração da fotografia, da trilha sonora e dos atores, o diretor consegue transformar em algo palpável as tramas interiores dos personagens do livro.
Na segunda metade, quando o perfil religioso de Maria Santa fica mais evidente, a trilha sonora litúrgica tem um papel fundamental para criar o clima de transe experienciado pela personagem enquanto é louvada por devotos. A trilha combina composições do autor barroco José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) – como a missa fúnebre - com outras originais, criando um efeito onírico e assombroso.
Em seu rigor estético, Fronteira lembra Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, uma complexa adaptação cinematográfica de um livro supostamente infilmável. No seu segundo longa, Conde caminha com segurança num terreno difícil e chega do outro lado deixando a certeza de que vimos algo único e corajoso – feito meio raro no cinema brasileiro dos últimos tempos.
