Marley e Eu comete uma enorme crueldade: joga toda responsabilidade de sua existência nos frágeis ombros caninos – ou seja, o animal é responsável para transformar um fiapo de história em filme. Em sua estrutura, o livro é uma coletânea de crônicas da vida dos Grogan na companhia do cachorro, ou seja, não é uma narrativa ao modo clássico, são várias historinhas. O filme, roteirizado por Scott Frank e Don Roos, segue essa mesma estrutura. Assim, mais parece um apanhado dos (supostos) melhores momentos de uma sitcom do que um longa-metragem.
Como era de se esperar, ao narrar o dia-a-dia da família em companhia do labrador, Marley e Eu apela para o lado emotivo dessa relação. Marley não é apenas o cão da família, é mesmo um membro da família – o que, aliás, é bem comum em qualquer casa. Mas transformar isso em filme, com algo que se justifique sua existência (além da fofura do animal), é outra história.
Marley é hiperativo e indisciplinado. Suas trapalhadas colocam John e sua mulher Jenny (Jennifer Aniston) em algumas roubadas, como numa aula de adestramento ministrada por uma tirânica Kathleen Turner, ou durante os passeios na praia onde cães são permitidos. Porém, ao invés de desenvolver bem alguma situação envolvendo o cachorro, o filme apenas mostra diversas pequenas situações sem muita unidade, a não ser a presença dos mesmos personagens.
Qualquer pessoa que já teve um animal de estimação – seja cão, gato, coelho, passarinho – vai se encontrar em algum momento de Marley e Eu – o que não quer dizer que isso seja uma qualidade do filme, dirigido por David Frankel, o mesmo de O Diabo Veste Prada.
Ao longo das filmagens, para acompanhar o período de treze anos que Marley viveu com os Grogan, foram necessários 22 cachorros das mais variadas idades e tamanhos – mas isso é imperceptível na tela, ele parece ser sempre o mesmo. Talvez monitorar cada um dos cães ao rodar uma cena tenha dado trabalho demais, desviando a atenção de outros aspectos.
Marley e Eu, no fim, tenta tirar lições de vida do cachorro e aplicar em humanos. John comenta que para um cão basta um graveto e um pouco de carinho, que ele nunca vai se importar se o dono é bonito ou feio, rico ou pobre. A felicidade, para um cachorro, é algo muito simples. O filme tenta pregar isso, mas se esquece de que humanos têm vidas um pouco mais complexas do que animais de estimação.
