04/06/2026
Documentário

Um Táxi Para a Escuridão

Em 2002, o taxista Dilawar e seus três passageiros são presos como suspeitos de terrorismo. No forte de Bagram, perto de Cabul, o taxista morre devido a espancamentos. Este documentário, premiado com o Oscar 2008, revela como a tortura, proibida pela Convenção de Genebra, virou o método de interrogatório das tropas americanas no Afeganistão, Iraque e na base cubana de Guantánamo.

post-ex_7
Vencedor do Oscar de documentário 2008, Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney (de Enron – Os Mais Espertos da Sala) é inegavelmente contundente. Apurando as condições da morte de um jovem e inocente taxista afegão, Dilawar, em 2002, no rastro da histeria das autoridades norte-americanas depois do 11 de Setembro, o filme constitui uma das mais sólidas denúncias do processo de transformação dos EUA de uma democracia-padrão e líder do mundo ocidental em potência decadente e adepta de métodos de tortura dignos das piores ditaduras de todos os tempos.

Preso juntamente com seus três passageiros, no interior do Afeganistão, por milícias locais, Dilawar foi entregue às tropas norte-americanas como suspeito de um atentado cometido no mesmo dia. Nunca houve provas deste envolvimento, nem por parte do motorista, nem dos passageiros.

Mantido preso na base militar de Bagram, ao norte de Cabul, Dilawar foi repetidamente espancado nas pernas. Também foi algemado no teto, privado de sono, permanecendo em pé por horas a fio. Embora este tratamento não fosse considerado letal, ele não sobreviveu.

Na descrição precisa dos próprios legistas norte-americanos, Dilawar morreu em decorrência destes espancamentos. Suas pernas, segundo seu relatório, estavam reduzidas a uma “polpa”, como se um ônibus tivesse passado por cima delas. Caso sobrevivesse, não haveria alternativa senão amputá-las.

Uma cópia deste relatório foi entregue à família do taxista, juntamente com seu corpo. Mas só vários meses depois seus familiares souberam como o caso era definido pelas próprias autoridades norte-americanas: “Homicídio”. O motivo deste desconhecimento era porque o relatório lhes foi fornecido unicamente em inglês. A única pessoa que os visitou em condições de ajudá-los a traduzi-lo foi uma jornalista do The New York Times, Carlotta Gall.

Sediada em Cabul, Carlotta foi a primeira a seguir a pista desta morte hedionda, que foi depois investigada também por um colega nos EUA, Tim Golden. Estes dois jornalistas, além de alguns militares e membros – minoritários, é verdade – do próprio governo dos EUA contribuíram para revelar como aquele país virou definitivamente as costas à convenção de Genebra, instituindo a tortura como método básico de interrogatório, em nome de uma “guerra total ao terror”.

Baseado em depoimentos de diversos analistas e de dissidentes desta macabra metodologia e que a denunciaram – como o ex-consultor da Marinha, Alberto J. Mora -, Um Táxi para a Escuridão constrói solidamente uma conexão entre Bagram, Abu Ghraib e Guantánamo – as três sucursais do inferno onde centenas de abusos foram cometidos contra prisioneiros e que viraram um escândalo mundial com a divulgação das fotos de Abu Ghraib, em 2003.

Um dos detalhes mais assustadores está na revelação de que a esmagadora maioria destes suspeitos foram presos aleatoriamente, sem qualquer avaliação profissional, por milícias locais. Estas milícias recebiam pagamento por cada suspeito entregue, sem a necessidade de provas. Podiam, portanto, ter se utilizado do clima paranoico daquela situação para livrar-se de seus próprios desafetos. Ou capturar qualquer inocente que passasse inadvertidamente por seu caminho – como foi o caso de Dilawar e seus passageiros, que terminaram enviados a Guantánamo.

Como visto no não menos contundente documentário Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris, as poucas punições que ocorreram aos responsáveis no caso de Dilawar foram de soldados. Ninguém acima da patente de sargento foi responsabilizado. Seus superiores, como generais no comando de tropas no Afeganistão e no Iraque (Dan McNeill, Geoffrey D. Miller) jamais viram o banco dos réus. Muito menos foram ainda processados os mentores dessa política – o vice-presidente Dick Cheney, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, procuradores da justiça Alberto Gonzáles e John Yoo, sem contar o próprio presidente George W. Bush.

A sensação que se tem, ao final de um filme destes, é de ter sido apedrejado, tamanha a virulência da realidade que ele evoca. Depois, o primeiro pensamento é o tamanho da tarefa do novo presidente, Barack Obama, se se dispuser, como se espera, a recuperar o patrimônio democrático da pátria de Thomas Jefferson, conspurcado pelo reinado sombrio dosneocons.

post