A família, na visão de Burman, é um espaço de crise e conflitos, onde o afeto é difícil e só é obtido a partir do esforço e negociação. E o casal formado pelo dramaturgo Leonardo (Oscar Martinez) e Martha (Cecilia Roth) vive um momento de desequilíbrio. Os três filhos, já adultos, partiram para assumir suas próprias vidas. O vazio deixado não é apenas o do quarto deles, é também o da própria relação, que precisa ser revista reinventada.
Liberada do papel de mãe, que a levou, anos atrás, a abandonar a faculdade, Martha sai na dianteira. Retoma os estudos, encara novas amizades e hábitos, rejuvenesce até fisicamente. Mostra-se pronta para iniciar novos tempos e sacudir a monotonia, vivendo uma nova liberdade.
Leonardo parece bem mais travado. Ressente-se do peso da idade, do enfraquecimento do papel de provedor. Resiste ao entusiasmo e, especialmente, aos novos amigos da mulher – aliás, ele resistia também aos antigos colegas de faculdade dela, que apenas suportava. Há um estranhamento e não só em relação a Martha. Leonardo vive um bloqueio criativo. E tem fantasias com outras mulheres, como a bela dentista Violeta (Eugenia Capizzano).
O que mais pesa contra o filme é este desequilíbrio entre Leonardo e Martha, porque Burman se dispõe a acompanhar bem mais o lado masculino. Vital como é, sente-se falta de maior oportunidade de expressão para ela. A câmera parece observá-la quase sempre de longe, como o marido, sem compreendê-la, sem dar-lhe realmente uma oportunidade de expor as próprias razões. Em se tratando de uma intérprete refinada como Cecília Roth, esta falha chega a ser um pecado.
Sem ser tão bom quanto Abraço Partido e Direito de Família, não se trata com certeza de um mau filme. Tem a grande qualidade de radiografar a classe média com alguma profundidade, algo que o cinema argentino recente tem se mostrado mais competente de realizar, por alguma misteriosa razão. Na Argentina, o filme foi visto por 300.000 espectadores, além de ter conquistado os prêmios de melhor ator (Martinez) e fotografia no Festival de San Sebastian 2008.
