03/06/2026
Drama

Os Contos de Canterbury

Pasolini faz sua releitura dos contos clássicos de Chaucer, celebrando a vida e a sexualidade. Essa é a segunda parte da ‘Trilogia da Vida’, que também inclui "Decameron" (1970) e "As Mil e uma noites" (1974).

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Em 1972, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini roteirizou e dirigiu Os Contos de Canterbury, sua versão das famosas histórias medievais do século XIV, de autoria do inglês Geoffrey Chaucer. Ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim daquele ano, o filme é a segunda parte na série que o cineasta chamou de “Trilogia da Vida”, também composta por Decameron (1970) e As Mil e uma Noites (1973).

Se nos anos de 1960, Pasolini (1922-1975) ficou bastante conhecido por seus filmes dados por difíceis, provocativos e políticos, como Teorema (1968) e Pocilga (1969), a “Trilogia da Vida” é mais acessível e vibrante, mas, nem por isso, menos importante no conjunto da obra do diretor.

Aqui, num primeiro momento, como mostra o letreiro final, o filme existe apenas pelo simples prazer de contar uma história. Porém, alguns anos mais tarde, o diretor disse numa entrevista a um revista italiana que a trilogia é a sua obra mais ideológica, pois celebra a vida, de forma física e carnal, mostrando os desejos humanos mais primitivos e a alegria de transgredir limites impostos pela religião e a sociedade.

Os Contos de Canterbury adaptam oito dos 24 textos originais, sendo relidos por Pasolini ao seu modo. Um dos segmentos, por exemplo, de poucas páginas em Chaucer aqui chega como um curta que homenageia Chaplin e a comédia muda americana. Já as frequentes cenas de nudez frontal e sexo – comuns também nos outros filmes da trilogia – refletem a idéia da celebração da vida proposta pelo diretor.

Se Chaucer é a base para o roteiro dessa crítica à sociedade, os pintores holandeses do século 16, como Pieter Brueghel e Hieronymus Bosch, foram uma clara inspiração quando Pasolini criou as figuras dos personagens e o visual do filme – especialmente na representação do inferno.

Curiosamente, depois de encerrar a “Trilogia da Vida”, Pasolini fez seu último filme, Saló ou Os Cento e Vinte Dias de Sodoma (1975), que, ao contrário daquele trabalho, vai na contramão da celebração da vida, retratando a destruição do corpo humano de várias formas reais e metafóricas. Logo depois deste filme, o diretor foi assassinado em Óstia, perto de Roma.

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