Grande vencedor do Oscar 2009, em oito categorias - melhor filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia, montagem, trilha original, efeitos sonoros e canção original - Quem Quer ser um Milionário? investe num melodrama recheado de música que segue a fórmula mais consagrada em Bollywood - como é chamado informalmente o rico e bem-sucedido polo de produção cinematográfico indiano, que rivaliza em tamanho e riqueza com Hollywood.
Trata-se de um filme diferente dos anteriores do diretor Boyle, conhecido pelo frenesi pop de Cova Rasa (1995), Trainspotting (1996), A Praia (2000) e Extermínio (2002). Entre outras coisas, porque o cineasta de 52 anos, inglês de Manchester, nunca havia pisado na Índia e topou o desafio de fazer um filme naquele país. Metade dos diálogos são em hindi, idioma que ele não entende. Para superar os desafios, Boyle contou com a parceria de uma co-diretora hindu, a documentarista Loveleen Tandan.
Quem Quer ser um Milionário? vinha sendo considerado um azarão, pelo orçamento modesto (US$ 15 milhões) em comparação a outros concorrentes no Oscar (como O Curioso Caso de Benjamin Button, que teria alcançado US$ 200 milhões) e ter enfrentado dificuldades para encontrar produtores. Mas sua fórmula deixa muito claro que foi planejado como um produto de olho num grande sucesso comercial. No pior sentido.
O enredo gira em torno de um heroi saído da pobreza e no caminho da redenção. Ex-menino de rua em Mumbai, Jamal Malik (Dev Patel) ganhou fama em todo o país ao ser escolhido para o programa “Quem Quer ser um Milionário?”. O mais popular show de perguntas da televisão local dá prêmios de vários milhões de rúpias aos vencedores.
Apesar de não ter estudo formal e de viver servindo chá numa central de telemarketing, Jamal vai acertando as respostas que, em princípio, não fazem parte de seu universo cultural, sobre poesia hindu e política internacional. E assim chega à final, que pode lhe dar nada menos de 20 milhões de rúpias.
O apresentador do programa (Anil Kapoor) desconfia de tanto sucesso e manda prendê-lo. Na delegacia, o rapaz é submetido a torturas, mas não admite fraude. Ele sustenta que seu conhecimento é autêntico e vai contando sua vida ao inspetor (Irrfan Khan, de Viagem a Darjeeling).
É assim que, em flashback, o público pode conhecer as provações da vida do menino, que ficou órfão como resultado da violência étnica – ele é da minoria muçulmana – e sobreviveu como pode, ao lado do irmão, Salim (Madhur Mittal), que entrou para a vida do crime.
O inevitável tempero romântico entra na verdadeira razão de Jamal ter lutado para chegar à TV. Há tempos, ele está obcecado em reencontrar Malika (Freida Pinto), que ele conheceu menina e que sumiu nas mãos de exploradores de crianças. Sua esperança é que ela assista ao programa e ele possa, finalmente, expressar-lhe seu amor.
Sucessivos prêmios de público, como os vencidos nos festivais de Toronto, Saint Louis e Austin, mostram que o diretor inglês está alcançando uma audiência bem maior do que seus trabalhos anteriores. Fora os Oscars, uma chuva de prêmios pavimentou a incrível recepção a este filme. Ou seja, quatro Globos de Ouro (filme, diretor, roteiro e trilha sonora), sete Baftas (inclusive de filme e diretor), prêmios dos sindicatos americanos – como dos produtores, diretores, montadores, diretores de fotografia, roteiristas e atores (que premiaram o elenco) – e várias sociedades de críticos (como as de Nova York e Los Angeles).
De bolso cheio e prestígio em dia, muita coisa do bom e velho Danny Boyle se perdeu no caminho até esta consagração. O mínimo que se pode dizer a respeito do filme, que adapta um livro do diplomata Vikas Swarup, é que reflete uma visão rasa, maniqueísta e novelesca da Índia, do ser humano em geral e dos pobres em particular. Isto apesar do empenho visível e da sinceridade de todo o elenco.
Dizem que o diretor fica ressabiado quando alguém faz comparações deste trabalho com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, coisa que não abala o brasileiro. Afinal, o filme de Meirelles é muito melhor, em todo e qualquer sentido. Não há, aliás, boas razões para compará-los só porque Quem Quer ser um Milionário?, mostra algumas favelas, ainda que com bastante realismo.
