19/07/2026
Documentário

Palavra (En)cantada

Diversos artistas brasileiros falam sobre a relação entre música e poesia, comentando a originalidade da relação entre as duas artes no Brasil. Entre os entrevistados, artistas como Chico Buarque, Maria Bethania, Lenine e Tom Zé.

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Falar de palavras e do discurso escrito num meio audiovisual como o cinema pode ser um desafio. Mas ele foi vencido com bastante criatividade no documentário Palavra (En)cantada, em que a diretora carioca Helena Solberg constroi uma dinâmica investigação sobre a peculiar relação entre a poesia e a música popular no Brasil.

A tese do filme, que vai ganhando força nos depoimentos de vários artistas, é de que o País registra uma integração toda especial entre a poesia, gênero normalmente de fruição e consumo intelectualizado e estrito, e a canção popular de ampla circulação. O fenômeno, assim entendido por exemplo pelo professor e compositor José Miguel Wisnick, tem raízes históricas.

Para outro músico e compositor, Lenine, a raiz da inspiração dos compositores brasileiros está lá atrás, nos trovadores medievais, raiz direta dos repentistas nordestinos. O escritor paulistano Ferréz, por sua vez, entende que o rap vem diretamente do cordel nordestino.

A cantora Maria Bethânia, por sua vez, não vê uma fronteira tão rígida entre a poesia e as letras de música. Apaixonada pelos versos do português Fernando Pessoa, entre outros, ela não raro declama poemas, e não só dele, em seus CDs e mesmo em shows.

Chico Buarque de Hollanda, que dá uma das entrevistas mais longas e expressivas do filme, é um que rejeita sistematicamente o rótulo de “poeta” que vivem lhe aplicando. Mas quem lê letras como as suas e de colegas como Paulo César Pinheiro, outro entrevistado no filme, dificilmente vai concordar com essa modéstia.

Além do encanto destas conversas com artistas de formação tão distinta quanto o Lirinha do Cordel do Fogo Encantado, Tom Zé, Martinho da Vila, Jorge Mautner, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero e BNegão, o documentário conta com diversas imagens raras, algumas mesmo inéditas.

É o caso de uma encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, num Teatro Universitário em Nancy (França). E também de uma apresentação de Dorival Caymmi nos anos 40, cantando e tocando ao violão sua famosa canção O Mar. Igualmente curiosa é uma entrevista de Caetano Veloso – uma sintomática ausência neste documentário – nos bastidores de um festival da TV Record, em 1967, logo depois da apresentação de sua canção Alegria, Alegria. O cantor e compositor fala da “liberdade” dos baianos no uso da guitarra na MPB, um assunto que rendeu muita polêmica na época.

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