Glauber é um morto sempre insepulto, a bradar destas imagens com seus bordões furiosos, suas definições candentes e diagnósticos às vezes proféticos. Não é uma presença fácil de se assimilar. Por isso, o ritmo de sobreposição em transe, obedecendo a uma cadência que poderia ser qualquer outra, serve para sinalizar a exigência de espectadores dispostos ao desafio, interessados em viagens de risco e capazes de acatar finais inconclusivos.
O título, que vem do grego clássico, significa “marcha rumo ao interior de um país”. O que era uma das propostas de A Idade da Terra, filme-testamento em que Glauber inventou quatro Cristos, um negro (Antonio Pitanga), um revolucionário (Geraldo Del Rey), um índio (Jece Valadão) e outro militar (Tarcísio Meira), às voltas com Brahms (Maurício do Vale), sua mulher (Danuza Leão) e uma rainha amazona (Norma Bengell), entre inúmeras outras personagens de sua ópera delirante.
Não apenas Anabazys flagra momentos do aparentemente caótico e, por vezes, agressivo método de direção de Glauber com seus atores, como também detecta os sinais do ocaso em que o cineasta se encontrava ao fazê-lo. Algum tempo antes, Glauber comprara briga com toda a esquerda nacional ao chamar o então chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, de “gênio da raça”, afirmando acreditar que a abertura do regime ditatorial viria através dele e do presidente, general Ernesto Geisel.
Numa fala, o próprio Glauber relembra que ficou de “castigo ideológico” por conta dessa colocação, que afinal mostrou-se exata, mas nem por isso deixou de ser instrumentalizada pelo regime – e essa era uma das razões da fúria da esquerda contra ele. Sempre circulando em faixa própria, Glauber teria sido, na definição do jornalista Zuenir Ventura (a quem ele mandou a carta sobre Golbery), um pioneiro do “anticomunismo de esquerda”.
Outro acesso de fúria, este de Glauber, ocorreu no Festival de Veneza, onde A Idade da Terra foi apresentado em competição, perdendo o Leão de Ouro para dois filmes, Atlantic City, de Louis Malle, e Gloria, de John Cassavetes. Uma “vitória imperialista”, na definição do cineasta brasileiro, cujo trabalho havia sido recebido com indiferença ou desprezo por boa parte da crítica, especialmente a italiana – que, também patrulheira, considerou que Glauber se deslocara do marxismo para o cristianismo. Entre os solitários apoios que recebeu em Veneza, figuraram, no entanto, os de Michelangelo Antonioni, Alberto Moravia e do cineasta argentino Fernando Birri, entrevistado em Anabazys.
Assistir a estes preciosos fragmentos e depoimentos – que são recortados sem ordem ou identificação didáticas – permite, em todo caso, recuperar uma parte da mística de Glauber. E rever uma parecela de sua forma de enxergar o cinema, como uma religião, em suas próprias palavras.
Este trabalho deve muito à existência do Tempo Glauber, arquivo e museu fundado no Rio em 1983, por iniciativa da a mítica mãe de Glauber, Lúcia Rocha, onde estão reunidos filmes e documentos do cineasta.
No Festival de Brasília 07, Anabazys venceu o prêmio especial do júri e o de melhor montagem (Ricardo Miranda).
