Tomando emprestado o nome do personagem de Travolta, o filme percorre o subterrâneo da psique do Chile daqueles dias, com toda uma coleção de pulsões reprimidas condensadas na figura de Raul Peralta (Alfredo Castro). Desempregado de meia-idade, Raul troca a apatia de uma vida sem nenhuma expressão pelo alter ego que assume em competições televisivas de sósias de Tony Manero.
Um dos poucos sinais de vida emitidos por este homem de passado incerto está justamente nas tardes que passa no cinema, decorando as falas e imitando os gestos do personagem de Travolta no filme. Para Raul, Manero sintetiza todo um paradigma de sex appeal e vitória social que ele não tem energia nem mesmo para tentar.
A passividade de Raul/Tony encontra um assustador contraponto nos surtos de violência que ele executa contra suas vítimas de assalto, que incluem velhinhas indefesas. Serial killer sorrateiro, ele exerce seu mister cego com uma frieza metódica de psicopata, que o equipara aos torturadores que, naquele auge da ditadura de Pinochet, assombravam os porões.
Os sinais da ditadura, embora sutis, estão evidentes na passagem de contingentes policiais nas ruas, nas menções ao estado de sítio e ao toque de recolher, nas detenções e espancamentos às vezes em plena rua, à luz do dia, sem qualquer reação das eventuais testemunhas – como Raul, cuja impunidade igualmente o iguala ao destes opressores.
Na pensão em que mora, Raul mantém um relacionamento ambíguo com a dona – que ele convence a deixá-lo remontar o chão de um pequeno palco, onde ele se exibe como Tony Manero - , além de uma outra mulher e sua filha, criando uma promiscuidade que Nelson Rodrigues radiografou como ninguém.
O clímax é um grande concurso de TV que elegerá o melhor Tony Manero, triste lembrança do paroxismo a que foi levado naquele país a síndrome da imitação de um modelo norte-americano, o american way of life, já então totalmente deslocado no tempo e no espaço.
