Filmada ao longo de três anos por 40 diferentes equipes de cinegrafistas, a produção reúne imagens de beleza e força suficientes para pintar um retrato nítido das diversas regiões do planeta.
Independentemente dos riscos do aquecimento global, visíveis especialmente na sequência que apresenta a vida dos ursos polares no Ártico, Terra tem inúmeras boas notícias a dar, a melhor delas, a extraordinária capacidade de sobrevivência e adaptação dos animais.
O foco principal do documentário está em acompanhar as migrações anuais de algumas espécies, ao longo de distâncias que superam milhares de quilômetros, em situações adversas como seca, degelo, tempestades e ataques de predadores. Situações que, apesar de extremas, fazem parte da natureza. Não se aborda diretamente o tema da poluição. No Ártico, segue-se o desafio de uma mãe ursa polar, saindo de sua toca no gelo acompanhada de dois filhotes, no final do inverno. Após meses de hibernação, ela deve ensiná-los a encontrar alimento rapidamente. O mesmo desafio tem o macho de sua espécie, com o agravante de que se encontra isolado, bem longe, num ambiente mais inóspito.
Na África, manadas de elefantes percorrem milhares de quilômetros em busca da água distante. Em pleno período de seca, enfraquecidos, eles precisam manter um extremo esforço de resistência, encorajando os pequenos e frágeis filhotes a fazerem o mesmo. No oceano, uma baleia jubarte, igualmente sem alimentação há meses por conta do inverno, deve atravessar mais de quatro mil quilômetros em mar aberto e hostil, amamentando e conduzindo seu único filhote no rumo de águas mais quentes e repletas do seu alimento preferido, o krill, um tipo de camarão.
Mesmo que sejam estes os protagonistas das sequências principais, as câmeras são generosas em mostrar inúmeras outras espécies, dedicando atenção especial aos filhotes de patos, macacos, pinguins e leões marinhos. Outro segmento curioso apresenta algumas das exóticas e multicoloridas espécies de aves do paraíso da Nova Guiné que, naquele país, são nada menos de 42.
Visando difundir informações, o filme é pródigo em números e dados, alguns surpreendentes. É o caso da informação de que a floresta boreal tem mais árvores do que todas as florestas tropicais juntas, representando 1/3 da cobertura vegetal do planeta. As florestas tropicais, por sua vez, ocupam 3% da Terra e reúnem 50% de todas as espécies.
Ainda que seja indiscutivelmente voltado a plateias de todas as idades, Terra nunca procura antropomorfizar os animais, como fez o documentário francês A Marcha dos Pingüins (04). Fiel a um enfoque mais realista, não se esquiva de mostrar algumas cenas em que a necessidade de sobrevivência de uma espécie a leva a caçar a outra. Numa sequência, um guepardo dispara em alta velocidade, alcançando uma gazela. A mais impressionante flagra dezenas de leões no ataque a um elefante desgarrado, uma das mais perigosas da filmagem, realizada no escuro, com lâmpadas infravermelhas, para não perturbar os animais. Apesar do realismo, há contenção, já que não se mostra um único pingo de sangue.
