O filme é, no mínimo, inquietante mas prende a atenção. Num projeto estudado e interpretado por Jean-Claude Bernardet, um dos intelectuais mais respeitados na análise do cinema brasileiro, FilmeFobia entra no terreno do cinema de experiência, que procura demolir as fronteiras entre ficção e documentário – embora tecnicamente tenha assumido o selo de “ficção” e o próprio diretor o apregoe como seu primeiro longa nesse gênero. O primeiro longa da carreira de Goifman foi o documentário autobiográfico 33 (2003), em que ele, criado por pais adotivos em Minas Gerais, lança-se à procura de seus pais biológicos.
Voltando à discussão sobre o gênero, FilmeFobia realmente não deixa de ser ficcional, já que as pessoas que estão na tela revivem seus piores medos, em rituais que às vezes parecem ultrapassar o limite do masoquismo, mas sem dúvida acontecem por vontade própria. As pessoas vistas em cena são atores de seu próprio medo, sejam ou não sofredores reais das fobias mostradas – de cobras, borboletas, botões, palhaços, penetração.
Reafirmando seu apego pela autoficção, o próprio diretor entra no experimento, enfrentando sua alegada fobia de sangue. Bernardet também não evita expor seu doloroso ritual de cuidados de saúde para seus problemas de visão, decorrentes de sua condição de soropositivo.
Num tempo de exposição permanente de imagens, de Big Brothers atuados e vazios, da busca frenética da transmissão instantânea de reportagens via internet, da permanente exposição da individualidade em blogs, facebooks, orkuts e twitters, toda esta discussão proposta por FilmeFobia não é pequena. Portanto, não há que se tratar o filme levianamente. Diferentes platéias o vivenciarão cada uma a seu modo. Diferentes profissionais, especialmente os ligados à área psiquiátrica, terão seus argumentos a apresentar. Um pouco dessa discussão já está incorporada ao próprio filme, nas conversas mantidas em cena entre Jean-Claude, Lívio Tragtenberg, Cris Bierrenbach e Hilton Lacerda – que são ao mesmo tempo seus atores e autores, já que Tragtenberg assina a trilha musical, Cris, a direção de arte (são dela as originais engenhocas do filme) e Lacerda é co-autor do roteiro, com Goifman.
FilmeFobia é aquele tipo de filme-experimento que coloca em xeque a própria identidade do cinema e sua linguagem, entre outras questões – até a do voyeurismo da violência, que praticam, por exemplo, as multidões de adolescentes (ou nem tanto) ávidos por filmes de terror onde jorram sangue e membros decepados. Que sede é esta por noticiários policiais? É para se comprazer ou ter compaixão?
Certamente, um projeto destes não é feito para agradar a um grande público. Seu valor está em propor todas essas discussões, que não são banais. Continua de pé, sem solução à vista, a dúvida de onde se localiza o limite da verdade e da ética, do que se pode ou deve mostrar e ver. A manipulação e disseminação das imagens são questões cada vez mais cruciais na formação dos corações, mentes e almas de nosso tempo.
Na apresentação do filme, em Brasília, Goifman agradeceu particularmente a "generosidade" de Bernardet, especialmente por ter "incorporado tudo de ficcional de forma tão autêntica que o filme está sendo chamado de 'documentário'". Mesmo admitindo estar "adorando" esta confusão de gêneros, o próprio Goifman observou: "Se o filme fosse realmente um documentário, na saída eu e o Jean-Claude seríamos presos".
No debate do filme, naquele festival, Jean-Claude Bernardet jogou ainda mais lenha na fogueira da dissolução dos gêneros cinematográficos. O que ele propõe há tempos, aliás, é a abolição pura e simples dos termos "documentário" e "ficção". "Precisamos descobrir novas formas de narrativas de fato, acompanhadas de metalinguagem", afirma. Ele não poupa nem mesmo a metalinguagem: "Também é algo a ser superado, porque é um vestígio da narrativa clássica". Uma discussão teórica elevada, que ainda terá muitos capítulos pela frente. Mas com certeza FilmeFobia é um deles.
