Para armar essa história, o diretor Mauro Farias dividiu o filme em duas narrativas bem diferentes. A primeira é contada por Polydoro enquanto que, na segunda, quem tem voz é Helena. Ousada, a técnica quase transforma Duas Vezes com Helena em duas fitas distintas, não fosse pelos recursos de flash backs e de imagens projetadas, que interagem com os personagens e respondem pela contextualização, em ambas as partes.
Baseado num conto de Paulo Emílio Salles Gomes, o filme agrupa alguns elementos interessantes como a misteriosa ambientação do primeiro encontro entre Polydoro e Helena, que nos imprime uma incontestável sensação de dubiedade, muito embora não consigamos, a priori, identificar a razão desse sentimento. Outro ponto que merece menção é a convicção política dos personagens. Polydoro, em meio à II Guerra Mundial, flerta com os ideais fascistas. Alberto, em contrapartida, condena as opiniões do jovem discípulo. No entanto, quem é vitimado por um plano que poderia perfeitamente fazer parte dos arquivos dos cientistas nazistas é Polydoro que, mesmo com algumas pistas evidentes, não consegue sequer imaginar seu papel na trama.
Duas Vezes com Helena, no entanto, incorre em alguns excessos que o deixam um tanto fatigante. O filme assume um tom excessivamente literário, como a quase totalidade das adaptações, e soa, em muitos momentos, como algo falso. Talvez isso se dê pelo fato de a fita ser ambientada nos anos 40 e por abordar um relacionamento entre um jovem e um professor, ambos bastante eruditos. O resultado final é uma produção bem formal que se apega a inúmeros elementos para alcançar um determinado efeito estético, mas que consegue despertar no espectador um certo incômodo e uma reflexão sobre a manipulação à qual é submetido o protagonista da história .
Cineweb-8/2/2002
