O improvável encontro entre esses dois homens separados por tantas diferenças sociais e geográficas oferece a oportunidade para que o diretor Philippe Lioret construa em seu drama um dos melhores retratos de como se manifesta a intolerância contra os imigrantes nos dias de hoje na velha Europa, o continente que se considera o berço da cultura e da civilização mas que, a cada dia, está dando mostras de ter-se tornado ultimamente um reduto de reacionarismo.
Há um comentário político em cada cena do filme, mas ele não se traduz em nenhuma forma de discurso. O roteiro, de Olivier Adam e Emmanuel Courcol, cria contextos para seus personagens com riqueza de detalhes que traduzem verdades bem incômodas. Assiste-se à tentativa de Bilal e outros imigrantes ilegais de passar pela França, escondidos num caminhão, depois de subornarem seu motorista. Para passarem pela fiscalização, precisam enfiar sacos plásticos na cabeça e não soltar nenhuma lufada de ar fora dele por alguns minutos – caso contrário, os sensores dos fiscais identificam o gás carbônico liberado por sua respiração. Bilal não aguenta e, por isso, ele e os companheiros são presos e levados a um campo de refugiados. Não sem antes ganharem números gravados com tinta indelével em suas mãos que evocam a sinistra memória dos campos de concentração nazistas.
Temporariamente livres para circular na cidade de Calais, os imigrantes morenos são destratados a cada passo. São mesmo impedidos de entrar nos supermercados, ainda que mostrem seu dinheiro. Uma situação que perturba pessoas como Marion, a ex-mulher de Simon, uma voluntária que dá assistência a esses estrangeiros deslocados, sem futuro à vista.
Aparecendo na academia onde Simon leciona em busca de aulas de natação, Bilal tem um plano secreto: atravessar a nado o canal da Mancha e chegar a Londres a tempo de impedir o casamento arranjado para sua namorada pelo pai dela. De nada adianta o professor adverti-lo sobre os perigos da jornada, que dura 10 horas ou mais, em água gelada e sob risco da travessia de grandes navios.
O paralelismo sentimental entre os dois homens, que criam um vínculo de amizade que expõe a riscos o professor francês, é o ponto alto de Bem-Vindo – que recebeu os prêmios de Melhor Filme Europeu da Mostra Panorama (Júri Ecumênico) e o Lable Europa Cinemas no Festival de Berlim 2009.
Simon acaba por ter problemas com a lei, já que virou delito na França (como em outros países europeus) o ato de ajudar estrangeiros ilegais – simplesmente dar carona a um deles pode gerar multa e processo. Ao ser lançado na França, em março, o filme causou polêmica justamente por abordar as recentes políticas anti-imigração. Por conta do filme, o Partido Socialista francês redigiu um projeto de lei batizado de Welcome, título original desta produção, em que propõe a supressão do chamado “delito de solidariedade”. Tratam-se dos artigos L622-1 e L622-4 do Código de Entrada e Estadia de Estrangeiros, que penalizam com prisão de cinco anos e multa de 30 mil euros quem ajudar, transportar ou abrigar qualquer imigrante ilegal na França. Uma aberração jurídica que atenta contra os direitos humanos de todos, imigrantes ou não.
