A desastrosa política do menor no Brasil desde os anos 70 é posta em foco neste filme de Luiz Villaça (Por Trás do Pano, Cristina Quer Casar), fixando-se na impressionante biografia de Roberto Carlos Ramos. Uma rara história com final feliz.
Nascido nos anos 1970 em Belo Horizonte, Roberto era o caçula de uma família pobre com muitos filhos. Entregue à FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor) pela mãe, pessoa simples e ignorante que acreditava que ele teria um futuro melhor ali dentro, ele encarou o abandono e a violência, que no seu caso incluiu espancamentos, detenção em solitária e até estupro.
Analfabeto até os 13 anos, Roberto escapou deste quase sempre invencível círculo vicioso devido à intervenção de uma pedagoga francesa, Marguerite Duvas (Maria de Medeiros). Graças a ela, estudou e conseguiu tornar-se, anos depois, um contador de histórias conhecido internacionalmente e que repetiu a generosidade de sua protetora adotando ele mesmo mais de vinte meninos – alguns que, como ele, já haviam sido tachados de “irrecuperáveis”.
Pontuada de incidentes trágicos mas também engraçados, a biografia de Ramos sofreu diversas adaptações neste roteiro, escrito por quatro profissionais – além do diretor Villaça, também José Roberto Torero, Maurício Arruda e Mariana Veríssimo. Condensa, por exemplo, num único personagem, a pedagoga Pérola (Malu Galli), a figura de diversas outras educadoras que passaram pela vida do menino, no período em que entrava e saía da FEBEM.
Apesar disso, O Contador de Histórias incorpora também um elemento documental ao inserir a narração em off do próprio protagonista e em sua aparição, na sequência final.
Um traço que alivia a narrativa é materializar as fantasias do menino – que são muitas e extremamente imaginativas - com o uso de animação e de recursos como música e figurino – como numa cena de assalto a banco em que os ladrões se vestem no estilo do grupo Jackson Five, ao som da música “Sá Marina”, na voz de Wilson Simonal, recuperando também o clima dos anos 70.
Eventualmente, se pode ter a sensação em alguns momentos de que a atuação da pedagoga é um tanto ingênua - como na sequência em que um menor perigoso entra em sua casa. Mas é importante lembrar que, além de ser estrangeira, vinda portanto de outra cultura, a história se passa há quase 30 anos atrás. Por conta da inoperância das políticas para o menor no Brasil, infelizmente, a violência neste caso cresceu de maneira absurda e trágica.
Tal como aconteceu a Ramos, o filme começou a mudar a vida também de pelo menos um de seus atores mirins, que nele estrearam. Paulinho Mendes, que o interpreta aos 13 anos, foi convidado a um estágio de atuação de seis meses no Grupo Galpão, de Belo Horizonte.
Os três garotos que interpretam o protagonista – Marco Antônio Ribeiro, Paulinho Mendes e Cleiton Santos – dividiram o troféu de melhor ator no Festival de Paulínia 2009, onde o filme também ganhou um Prêmio Especial do Júri.
