Se a Argentina vive uma crise, com certeza não é de cineastas. Lá, o cinema nacional tem tomado o pulso da nação, traduzindo esse contato íntimo em filmes que tratam visceralmente dos assuntos que transtornam o país vizinho. Um de seus mais inquietantes exemplares, Do Outro Lado da Lei, ainda registra mais um atrativo - as inquietantes semelhanças com o Brasil num processo de desagregação social, a que corresponde uma crescente violência policial.
"Bonaerense", o título original, é uma gíria com dois significados. Designa, ao mesmo tempo, o morador nativo de Buenos Aires e a temida polícia local. Temida com muita razão. Uma delegacia é, ao mesmo tempo, a última instância a que recorre um cidadão abandonado por todas as demais instituições, uma coleção de mazelas de toda ordem, um beco sem saída de burocracia e filas sem fim e, quando se rompe a curta paciência dos fardados, fonte de autoritarismo. Nas ruas, aliás, muito mais brutal.
Mas Trapero tem ambição maior do que denunciar um fenômeno que, aliás, está presente em muitos outros países. Seu foco é a internalização da violência, a transformação de uma vítima em algoz. Para isso, vale-se de um protagonista despossuído, o chaveiro Zapa (Jorge Roman), camponês simplório e sem formação escolar que acaba envolvido num assalto - onde sua participação foi apenas abrir um cofre para seu chefe (Hugo Anganuzzi), sem saber do que realmente se tratava. O chefe desaparece com o dinheiro roubado e Zapa só escapa da prisão porque tem um padrinho com altos contatos na esfera policial.
A mudança de ares, em todo caso, torna-se imperiosa e Zapa vai para Buenos Aires. Com uma carta de recomendação do padrinho mafioso, acaba entrando na corporação policial. Tímido e humilde, Zapa é submetido a sucessivos rituais de humilhação que acabam solidificando nele uma segunda natureza. O corte brutal com suas raízes e a imersão neste cotidiano opressivo alimentam uma raiva cega, que se transforma na base de um ser autoritário, um policial violento, como tantos outros, adaptando-se ao crônico atraso dos baixos salários com o recurso constante à corrupção.
O filme visita ainda outros temas que incomodam argentinos e brasileiros. Como a verdadeira guerra entre policiais e jovens desempregados nas periferias das grandes cidades e o crescimento de cultos místicos que semeiam crenças absurdas ao mesmo tempo que extraem de populações já pobres alguns de seus últimos tostões. Um outro tema oportuno e bastante raro em filmes argentinos é o do racismo. Transformando em cinema tantas inquietações, Trapero não se esqueceu de quase nada. Seu retrato da Argentina moderna é mesmo devastador.
Cineweb-27/9/2002
