Verdade que esta é uma proposta de risco. E que, como qualquer outro filme, poderá não interessar a todo mundo. Quem apostar, poderá ter uma boa surpresa. Afinal, exibe-se aqui uma demonstração cabal do típico senso de humor português. Para quem já sabe o que é isto, não é necessário explicar. Para quem não sabe, o filme é um bom exemplo.
Aquele Querido Mês de Agosto começa como um documentário, um mergulho num Portugal rural e contemporâneo no alto verão. Nesse momento, proliferam pelo interior apresentações musicais e festas, algumas bem curiosas – como a “noite dos colhões”, uma espécie de desafio musical que lembra de leve os repentistas nordestinos.
Malucos de aldeia também aparecem. Como Paulo “moleiro”, que todo Carnaval pula da ponte de sua cidade, lançando-se no rio, sem maiores conseqüências. Por que? Aí é que está – ninguém entende, mas a prática continua. A graça que pode haver no patético é um dos aspectos do imaginário rural que são revelados pelo filme.
Em algum momento de Aquele Querido Mês de Agosto fica claro que ali mesmo naquele lugar que estamos vendo desenvolveu-se uma seleção de elenco e outros preparativos para a filmagem de uma ficção, que afinal ocupa espaço diante das câmeras. Nela, o centro é um romance prosaico à primeira vista, entre um primo, Hélder (Fábio Oliveira) e uma prima, Tânia (Sónia Bandeira). Romance secreto e dado como impossível por conta de um segredo de família um tanto desconcertante.
Entre documentário e ficção, infiltra-se na história o impasse desta juventude rural – a quem cabe,em algum momento, decidir partir ou não. Nesse momento, vibra um vestígio da saudade, palavra portuguesa, que remete às históricas imigrações deste povo de navegantes e descobridores.
Momentos hilariantes aguardam os espectadores que ficarem até o final – a conversa do técnico da equipe sobre os sons captados por seus microfones é um dos melhores papos de maluco deste filme livre, leve, solto. Como todo cinema devia ser.
