Sem dúvida, há os tropeços de roteiro e condução que se pode esperar de uma iniciante. Mas o filme tem o mérito de colocar na tela uma visão feminina para recontar a história de uma família toda de mulheres. Quatro irmãs (Maria Zilda Bethlem, Suzana Gonçalves, Ingra Liberato e a própria Florinda), que vivem longe uma da outra, reúnem-se para o quarto casamento de uma delas (Suzana), desta vez com um jovem de 21 anos (Daniel Dias). A mãe do clã (Lídia Matos, troféu de melhor atriz coadjuvante em Gramado) já exibe sinais de arteriosclerose. Enquanto isso, as filhas se posicionam de diferentes modos perante a vida e o amor. Eleonora (Florinda), a mais velha, é escritora, mora na Europa e acaba de romper o casamento de 20 anos com um editor. Rose (Maria Zilda, prêmio de melhor atriz em Gramado) é pintora, ousada, irreverente e tem um caso com um homem casado (Herson Capri). Isabel (Ingra), a mais nova, vive nos EUA, é casada com um político e desafoga sua infelicidade na bebida.
De uma forma até ousada, a diretora introduz no enredo um caso homossexual, vivido entre ela própria e uma jovem italiana, Selvaggia (Valentina Vicario), filha de seu ex-marido. O detalhe incomodou pelo menos um dos presentes na platéia do festival gaúcho, em 2000. No final da projeção do filme, o anônimo espectador gritou em altos brados: "Abaixo o furor uterino", "ejacular é preciso" e "é preciso manter a ereção" - uma manifestação isolada e absurda que comprovou que o machismo folclórico não está de todo morto.
Mesmo derrapando nas incertezas da diretora iniciante, o filme tem o mérito de reintroduzir uma discussão que muitos consideravam superada desde os anos 60, a da tolerância sexual. Tendo a coragem de uma tomada de posição pelos direitos homossexuais femininos - menos por discurso militante que não existe, do que pela simples colocação de um casal de mulheres - o filme ganha até uma inesperada seriedade. Dramaticamente, porém, espera-se que uma nova tentativa de Florinda tenha maior consistência.
Cineweb-10/5/2002
