Primeiro longa da jornalista Luciana Burlamaqui, o documentário Entre a Luz e a Sombra revisita a questão carcerária no Brasil. Tema já retratado por documentários competentes,como O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, este trabalho tenta um novo ângulo, que passa pelo choque das diferenças sociais no Brasil, a desumanidade dos presídios e a estreiteza das soluções judiciárias.
O filme focaliza o trabalho da atriz Sophia Bisilliat como voluntária social em presídios como o Carandiru, em São Paulo, e a relação que se forma entre ela e dois detentos que se tornaram uma famosa dupla de rappers – a 509-E, formada por Dexter e Afro-X.
Acompanhando a vida destes três personagens desde 2000, a diretora coloca em primeiro plano o idealismo às vezes ingênuo, mas sem dúvida bem-intencionado, de Sophia, que atua como uma espécie de ONG individual, e a tentativa de ressocialização tentada pelos dois presos como músicos, que terá resultados diferentes para os dois.
Nascidos na periferia de São Bernardo do Campo, Marcos Fernandes de Omena (o futuro Dexter) e Christian de Souza Augusto (Afro-X) foram amigos de infância, mas se separaram no começo da vida adulta. Reencontraram-se na cela 509-E, que terminaria batizando sua dupla musical, no Carandiru, anos depois, um condenado por um homicídio e vários assaltos a mão armada e o outro, pelo mesmo tipo de assalto.
Luciana Burlamaqui, que várias vezes se encarrega também da câmera do filme, capta o ambiente sombrio do Carandiru, às vésperas de sua desativação, que ocorreu em 2002. Segue Sophia por estes corredores, onde é recebida como uma espécie de anjo da guarda, alguém que todos tentam tornar porta-voz de suas necessidades.
Através da história dos dois presos, que começam a sair com licenças especiais para darem shows – autorizados pelo então juiz-corregedor dos presídios paulistas, Octávio de Barros Filho – a diretora cria oportunidades para a análise de vários tipos de dilemas sociais.
Sophia Bisilliat torna-se empresária da dupla de rappers e, mais adiante, namorada de Dexter. Ele convive com os dois filhos dela do primeiro casamento e conhece realidades distintas de sua vida anterior, como nos shows – onde suas letras, falando das tristezas da vida dos pobres e prisioneiros, viram sucesso entre jovens de vários bairros da periferia paulista.
Ironicamente, o sucesso da dupla, que inspira outros presos a seguirem seu exemplo, provoca reações dentro do ambiente judiciário e pressões sobre o juiz-corregedor. Algum tempo depois, os rappers são impedidos de sair com a mesma frequência, especialmente depois da ocorrência de uma rebelião, em 2001 – em que a então namorada de Afro-X, a cantora Simony, que estava grávida dele, foi feita refém, ao lado de outros familiares que vieram visitar os detentos.
Algum tempo depois, a liberdade condicional obtida por Afro-X terminará sendo a última gota para o fim da dupla. Afro-X dará prosseguimento à carreira musical, enquanto o destino de Dexter, agora rompido com Sophia, toma um rumo distinto.
Com o fechamento e demolição do Carandiru, ele será transferido de prisão e prisão, terminando na unidade de segurança máxima de Tremembé (SP) – onde ele tem ainda muitos anos de pena a cumprir e poucas perspectivas de retomar a carreira musical, ou qualquer outra. As imagens de uma conversa entre a diretora, Sophia e Dexter algemado na sala do diretor desta prisão falam por si mesmas sobre os contrastes dramáticos na vida de.le.
Evitando julgar os personagens, o documentário tem no depoimento do juiz Octávio de Barros Filho um de seus pontos altos. Transferido a pedidos para uma vara na zona sul de São Paulo, é dele uma lúcida análise sobre as razões para o surgimento do PCC – Primeiro Comando da Capital, a organização criminosa dentro dos presídios paulistas e que comandou uma onda de ataques a ônibus, bancos e postos policiais em São Paulo, em maio de 2006. É dos comentários do juiz que surge, aliás, o título do filme – que tem na longa duração (150 minutos) seu problema mais grave. Uma montagem mais ágil, que enxugasse várias sequências – como alguns depoimentos de Sophia – somariam para sua maior consistência.
Exibido na mostra O Estado das Coisas, no Festival É Tudo Verdade em 2008, o documentário venceu a 4ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, em novembro último. Anteriormente, também vencera o prêmio do público e uma menção especial do júri no 17º Festival de Cinema e Culturas da América Latina, em Biarritz, França.
