Envolto nesse manto de virtual invisibilidade, Eric não investe em nenhuma relação pessoal. Nem dentro de sua própria casa, onde mantém uma convivência tensa com a mãe, Héléne (Aurore Clément) e o padrasto, René (Johan Leysen). Não se dá muito melhor nem mesmo com a irmã mais velha (Natalie Richard), que mora fora. O isolamento e o voyeurismo definem Eric como um descendente cinematográfico do jovem protagonista de Não Amarás (1988), de Krzysztof Kieslowski. Uma referência que não desmerece o diretor estreante aqui, Olivier Jahan - muito pelo contrário -, ainda mais que ele não se limita a uma mera imitação do mestre polonês, morto em 1994.
Eric é um paradigma da dificuldade de comunicação e também do egoísmo adolescente, que, refugiando-se nessa pretensa invisibilidade, não deixa de alimentar uma outra fantasia: a de interferir a seu bel-prazer na vida alheia sem ser visto, portanto, sem responsabilidade pelo que pode provocar. Assim, o tímido dispara bilhetes para os seus vizinhos e, num determinado momento, utiliza uma fotografia, com resultado devastador. Faz de Conta que Eu Não Estou Aqui é, por vezes, errático e irregular como o coração do personagem em sua trajetória de crescimento e descoberta da própria sexualidade. Apesar destas oscilações de tom, é um primeiro passo respeitável na carreira de um novo diretor.
Cineweb-8/2/2002
