Vinte e um anos depois de Ligações Perigosas (88), o diretor inglês Stephen Frears uniu-se novamente ao roteirista Christopher Hampton e à atriz Michelle Pfeiffer para realizar Chéri, outro filme de época em que o conflito entre amor e erotismo é fundamental.
Mais uma vez, trata-se da adaptação de uma obra literária, no caso, o romance homônimo, escrito em 1920 pela autora francesa Colette (1873-1954). Lea de Lonval (Michelle Pfeiffer) é uma cortesã francesa, famosa e rica, que considera a ideia da aposentadoria, depois do rompimento com o último amante. Aos 49 anos, ela nunca se apaixonou e pensa em aproveitar o resto de sua vida o bom patrimônio que acumulou.
Visitando a ex-rival, agora amiga, Charlotte Peloux (Kathy Bates, de Foi Apenas um Sonho), Lea assume a missão de tirar de uma vida de devassidão, entre bebidas e mulheres, o filho desta, seu afilhado Fred Peloux, que ela chama de Chéri (Rupert Friend), de 19 anos. Uma missão que não deixa de ser irônica, dada a experiência de ambas as mulheres.
Os dois viajam à bela propriedade de Lea na Normandia. Mas o que se afigurava como um fim de semana de prazer transforma-se num relacionamento que dura seis anos.
Diante desta longa duração, que ultrapassou sua expectativa e propósitos, a mãe de Chéri muda de atitude. Arranja um casamento para o filho, que o tornará mais rico pela conquista dos bens da jovem Edmée (Felicity Jones). Aliás, filha de outra cortesã, Marie Laure (a dinamarquesa Iben Hjejle, de O Grande Chefe). Neste ramo de atividade, a solidão entre seus pares é também uma das maldições, que decorre da hipocrisia e moralismo ao seu redor.
Aparentemente, Lea foi preparada a vida toda para as separações – ainda mais tendo em vista a grande diferença de idade de Chéri. O casamento dele, porém, precipita uma crise de depressão. Contra sua própria expectativa, a experiente Lea descobriu-se apaixonada de verdade, e perdidamente, desta vez. E o mesmo pode ter acontecido com o cínico Chéri, embora sua vivência seja tão diferente.
A grande semelhança que une Chéri a Ligações Perigosas – embora este último seja bem mais denso – é justamente a quebra de uma certeza cínica da impossibilidade do amor para quem costuma tratá-lo como mercadoria ou estratégia de manipulação.
O componente extra aqui é a idade. Lea é uma cortesã que contempla a aposentadoria também por conta de sua inevitável chegada. O fato de ser interpretada por uma atriz que tem praticamente a mesma idade da personagem (hoje, 51 anos) torna-se quase uma ironia, dada a beleza impecável de Michelle Pfeiffer, magicamente preservada ao longo dos anos.
Na vida real, no entanto, não é bem assim. Atrizes da idade de Michelle em Hollywood costumam ter muito trabalho para se reinventar e manter-se ativas, por mais talentosas que sejam. São consideradas pelos produtores como riscos de bilheteria e aptas a serem substituídas por colegas muito mais jovens – um preconceito, aliás, que não é privativo da profissão de ator.
