07/06/2026
Drama

Capitães da Areia

Nos anos 1950, meninos que viviam nas ruas e praias de Salvador, liderados por Pedro Bala, eram conhecidos como os Capitãos da Areia. Viviam de pequenos furtos e enfrentavam as dificuldades da rua, defendendo-se com golpes de capoeira. História baseada no romance homônimo de Jorge Amado. O elenco mirim é formado por garotos da comunidade de Salvador, que passaram por mais de dois meses de preparação, sob a responsabilidade do preparador de elenco Christian Duurvoort ("Ensaio Sobre a Cegueira"). A direção é da neta do escritor, Cecília Amado, com roteiro do premiado roteirista pernambucano Hilton Lacerda ("Baile Perfumado").

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É curioso que um dos livros mais famosos de Jorge Amado, Capitães da Areia, originalmente publicado em 1937, só tenha sido adaptado para o cinema em 1971, por um americano, Hall Bartllett. Diz a lenda que o filme é bastante famoso na Rússia – é possível até encontrar vídeos no Youtube com letreiros em russo. No final dos anos de 1980, recebeu uma adaptação para a televisão, dirigida por Walter Lima Junior. Só agora ganha uma versão nacional para o cinema, sob a direção de Cecília Amado – neta do escritor, morto em 2001, cujo centenário de nascimento se comemora em 2012.
O filme tem roteiro assinado pela própria diretora e Hilton Lacerda (Estamos juntos), que deixa de lado alguns dos tons mais fortes dessa obra de Jorge Amado. O romance faz parte da primeira fase do escritor e é um livro de denúncia social, com vários subtextos políticos. No filme, eles são bastante discretos e podem vir mais de uma boa vontade de quem vê o filme do que a obra em si.
A ação é situada, como no original, na década de 1930 – mas, percebe-se, não mudaram muitas coisas para a vida dos meninos de rua desde aquela época. Há algumas melhoras, é claro – isso com a ajuda de ONGs com projetos sociais que, aliás, foram onde a diretora foi buscar seu elenco de jovens estreantes, como Jean Luis Amorim, Robério Lima e Ana Graciela, o trio de protagonistas.
Uma espécie de Robin Hood soteropolitano, Pedro Bala (Amorim) é o líder de um grupo de garotos de rua que vivem por conta de pequenos furtos em Salvador. O grupo tem suas regras internas, assim como um código moral e de conduta próprio. O filme é eficiente nos momentos em que lida com o grupo como um todo. Mas, quando tenta delinear os dramas individuais de personagens como Pedro Bala, Professor (Lima) e Dora (Ana Graciela), perde um pouco o foco e a força. As histórias de cada um deles ficam um tanto pulverizadas e apressadas, muitas vezes, sem um tempo orgânico para acontecerem.
A boa fotografia de Guy Gonçalves – também creditado como codiretor – exalta o colorido da capital baiana – que vem também das ruas, das festas religiosas e da natureza. O grande cuidado, nesse sentido, é para que o filme não se transforme em “macumba para turista” – em alguns casos, literalmente.
Nos últimos anos, a obra de Amado tem encontrado na televisão um veículo mais apropriado do que no cinema – exceto por Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto. Numa telenovela ou uma minissérie, é mais fácil dar conta das centenas de páginas e personagens de romances como Tieta e Gabriela. Capitães da areia é uma das obras sucintas, mas, no cinema, carece um pouco da força que há no livro, em que os personagens são apaixonantes – aqui, quando muito, empolgam.
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