04/06/2026
Suspense Drama

O segredo dos seus olhos

Espósito é um oficial de justiça que se impressiona com um crime brutal e conduz uma investigação por conta própria. Trinta anos mais tarde, ele ainda é obcecado por isso e escreve um livro. No Sesc Digital (até 6/4/2025).

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Conhecido por sua comédia de sucesso O Filho da noiva, o diretor argentino Juan José Campanella surpreende pela profundidade e combinação de gêneros de seu longa, O segredo dos seus olhos, que venceu o segundo Oscar de melhor filme estrangeiro para a Argentina (o primeiro foi por A História Oficial).
 
O segredo de seus olhos é protagonizado por Ricardo Darín, o ator-fetiche de Campanella, que aqui atua num registro diferente daquele que o transformou numa presença constante em comédias argentinas. Como pede seu personagem, o oficial de justiça Espósito, ele entrega uma interpretação mais contida e, por isso, repleta de nuances. A maquiagem contribui nas idas e vindas no tempo da narrativa, mas é o trabalho do elenco – que também inclui Soledad Villamil e Guillermo Francella – que dá credibilidade à combinação de estilos e à transição entre passado e presente.
 
Roteirizado por Campanella e pelo escritor Eduardo Sacheri (autor do romance no qual foi inspirado), o filme toca em feridas da história argentina sem nunca fazer destas o seu tema principal, ou sua razão de ser. Um dos tempos da narrativa é em meados dos anos 1970, quando uma moça é encontrada brutalmente assassinada. Se bem que motivações políticas são mencionadas – seria ela uma subversiva? –, elas não são aprofundadas, pois o foco do diretor é outro.
 
O poder do amor, da obsessão e a sede de vingança move os personagens. Espósito trabalha num tribunal de justiça criminal, chefiado por uma mulher, Irene (Soledad), por quem ele se apaixona platonicamente. O romance deles sobrevive três décadas depois quando, já aposentado, ele ainda visita a amiga – eterno amor – que trabalha no mesmo tribunal, onde passam horas conversando.
 
No presente, ele escreve um livro de ficção inspirado naquele crime, possivelmente até hoje sem solução – ou pelo menos, com uma resolução frustrada. O passado jamais descansa. Por meio de flashbacks, que entrecortam toda a narrativa, descobre-se que Espósito foi o detetive que solucionou o caso.
 
O assassino é descoberto, mas logo ganha liberdade, pois se oferece para ser informante da polícia e fazer o trabalho sujo que a ditadura militar necessita. “Subversivos são mais perigosos do que estupradores e assassinos”, comenta uma pessoa ligada à Justiça. Isso incomoda tanto Espósito quanto o marido da vítima (Pablo Rago) – que todos os dias passava por uma estação de ônibus, na esperança de que o assassino, que ele sabia quem era, passasse por ali.
 
A montagem, também assinada pelo diretor, dialoga com o passado, com a urgência da resolução do crime, e o presente, carregado da melancolia das oportunidades perdidas. Os personagens olham para trás e analisam as suas vidas e constatam que se transformaram naquilo que nunca planejaram ser.
 
Esse é sem dúvida o filme mais sombrio e mais interessante do diretor que, ao combinar um clima noir com um drama dos romances frustrados, é capaz de prender a atenção por mais de duas horas. Em se tratando da direção, aliás, existem algumas sequências memoráveis. Especialmente uma tensa e longa perseguição num estádio de futebol abarrotado de torcedores numa noite de jogo.  
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