04/06/2026
Documentário

Jards Macalé – Um morcego na porta principal

Cantor, músico, compositor, o carioca Jards Macalé viveu na pele os dilemas de ser artista contestador nos tempos da censura, na ditadura militar. O filme ouve seus amigos, lembra momentos marcantes de sua vida - como os shows "Opinião" e "Banquete dos mendigos" - e detalha sua luta contra o rótulo de "maldito".

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Logo de cara, o documentário Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal deixa de lado a reverência. Um irritado Jards Macalé vocifera para o cineasta Marco Abujamra (um dos diretores): “Olha que eu posso processar vocês!”. O motivo da bronca é que o cantor, músico e compositor não tem certeza de que vai deixar-se retratar pelo filme. Quando o diretor pergunta qual é o seu medo, ele dispara na lata: “O medo de que vocês desconstruam tudo o que construí – minha vida”.
 
E é assim mesmo, bronqueado, irreverente, sincopado, fluente, criativo, que Macalé vai brotando no filme, um pequeno mapa da identidade deste músico que andou perto do Tropicalismo, mas não foi sócio do clube, esteve em todos os momentos e lugares onde isso era importante – como o show Opinião – e conseguiu resistir em plena ditadura militar, sem fazer discurso fora de sua arte. Que é, infelizmente, subavaliada.
 
Macalé não é um medalhão da música brasileira, assim como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa – e essa é uma injustiça que o filme de Abujamra e João Pimentel, vencedor do Prêmio do Júri do Festival do Rio de 2008, procura reparar. E assume esta causa sem esbarrar no “babaovismo” que contamina tantos documentários, inclusive os que tem protagonistas dignos de tantos louvores, como é o caso deste.
 
Macalé surge destes fotogramas assim como é, possuído de sua peculiar mistura de ira santa contra as mazelas do mundo, combinada a uma ironia peculiar, que é mais raivosa do que a média do temperamento carioca. Assim, o tijucano Macalé (ele não é baiano, como tantos pensam) enumera a mistura de influências recebidas em casa, da mãe e da avó que cantavam Vicente Celestino, do pai que tocava acordeon e adorava ópera e das batucadas de samba ouvidas ao pé dos morros do Rio.
 
Violonista, cruzou seu caminho nos bares da zona sul com Baden Powell. Brigou com Dori Caymmi, ficando sem falar com ele por três anos só porque mudou um acorde de sua composição, Tarde Demais. Episódio que hoje os dois lembram rindo.
 
Não era essa a guerra de Macalé, nem de sua geração, que enfrentou a ditadura. Assim, Macalé junta-se a Bethânia no palco do histórico show Opinião, em 1964, ela substituindo Nara Leão, ele, Roberto Nascimento, no violão. Bethânia, aliás, morou alguns meses na casa de Macalé. Uma casa em ebulição onde, como ele lembra, Caetano, Torquato Neto, Capinam e Rogério Duprat discutiram a Tropicália.
 
Com alguns dos amigos partindo para o exílio, como Gil, Caetano e Chico, Macalé fica no enfrentamento com a censura e o sufocamento político. Nem sempre é compreendido. Em 1969, no Festival Internacional da Canção, sua canção Gotham City, parceria com Capinam, cuja letra sobre a existência de “morcegos e abismos na porta principal”, traça um evidente paralelo entre os anos de chumbo e a sombria cidade de Batman, é recebida com sonoras vaias.
 
Batalha maior foi vivida em 1973, quando é chamado a participar, com outros artistas, da comemoração aos 25 anos da Declaração dos Direitos Humanos no Museu de Arte Moderna do Rio. Macalé comparece com seu show Banquete dos Mendigos – alusão ao álbum dos Rolling Stones, Beggars’ Banquet, de 1968. Lida em público a Declaração dos Direitos Humanos, que mencionava tortura e outros temas proibidos pela censura, o museu, cheio de artistas, foi cercado pela polícia.
 
Macalé ainda seria preso – por sete horas – depois de um show em Vitória (ES), do qual participou o veterano sambista Moreira da Silva. Uma prisão que teve momentos hilariantes, diante das tentativas de Moreira de livrar a cara do amigo, aproveitando o fato de que tinha fãs entre os policiais.
 
O momento mais depressivo de sua vida, segundo amigos como Abel Silva, veio mesmo nos anos 80. Deprimido com a morte de amigos e parceiros, como Torquato Neto (que se suicidou em 1972), Macalé começou a despedir-se de todos, anunciando sua intenção de morrer. Abel lembra uma noite marcante, em que testemunhou telefonemas de Capinam e de João Gilberto – cuja interpretação, ao telefone, de No Rancho Fundo, de Ari Barroso e Lamartine Babo, comoveu Macalé. Noite adentro, Abel e Macalé percorreram diversos bares, numa bebedeira que parecia interminável. Quando o amigo anunciou uma preocupação com a ressaca do dia seguinte, Abel se convenceu de que o pior tinha passado.
 
Se há uma coisa que enfurece Macalé ainda é o rótulo de “maldito”, que uma parte da mídia costuma pregar-lhe há décadas. Ele odeia este selo, que costuma ser estendido também a artistas como Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé. Para o músico, isto nada mais é do que uma maldição jogada por gravadoras, contra as quais ele se bateu a vida inteira.
 
O lado poético e anarquista de Macalé, entretanto, flui a todo momento. Como quando ele fala de seu sonho de ver a palavra “amor” inserida na bandeira brasileira, ao lado de “ordem e progresso”. Macalé é assim. Esta indissociável mistura entre fúria e paixão.
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