03/06/2026
Comédia

A Riviera não é aqui

Ansioso para conseguir uma promoção e dirigir uma agência de correio no quente sul da França, na Côte d'Azur, Philippe Abrahms recorre a uma malandragem. Pego em flagrante, é mandado, como castigo, num novo posto, no extremo norte do país. Ao invés de frio e colegas rudes, encontra simpatia e um clima ameno - apesar do sotaque difícil...

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Em uma época em que comédia tornou-se sinônimo de deboche, escatologia e paródia, A Riviera não é aqui mostra que o humor pode ser extraído do que há de mais singelo e prosaico. Escrito, dirigido e coprotagonizado pelo ator francês Dany Boon (de Feliz Natal, 2006), trata-se de um filme familiar em que o riso vem espontaneamente do equilíbrio entre a sutileza e a surpresa. Na França, foi um sucesso histórico de bilheteria, visto por mais de 20 milhões de espectadores em 2008.
 
Boon traz às telas a história de Philippe Abrams (Kad Merad, de Paris 36), o diretor de uma agência dos correios em Salon-de-Provence, sul da França. Vítima da sinceridade brutal e desconcertante de sua mulher, Julie (Zoé Félix), que o trata a pontapés, ele traça um plano para ser transferido a uma sede na Côte d´Azur (a Riviera Francesa), onde ela poderia, quem sabe, ser mais feliz e amigável.  
 
Mas nada dá certo na vida de Philippe, que, como punição a um truque, acaba sendo enviado para dirigir uma agência em Bergues, em Nord-Pas-de-Calais, extremo norte do país. Sentindo-se castigado pelo chefe e hostilizado pela esposa, parte sozinho para a região que, aos seus olhos, é fria, chuvosa e povoada por provincianos beberrões e ignorantes.

Para sua surpresa, ele encontra à sua espera uma cálida recepção por parte dos "cheutimi”, como se designam as pessoas, dialeto e costumes de uma pitoresca população local. O que lhe cria um outro dilema: por mais que se divirta em seu novo emprego, ele não acha um jeito de confessá-lo a sua mulher, que passa a admirá-lo por se “sacrificar” pela família em um lugar tão inóspito.
 
Assim como quem olha as uvas caindo de maduras, mas tem a obrigação de achá-las ainda verdes, Philippe reduz a importância de sua vida social em Bergues para sua mulher, o que o levará às mais embaraçosas situações. 
 
O humor, portanto, vem do estranhamento das culturas aparentemente opostas, seja no modo de vida, seja pelo complicado sotaque Chitim. É daí que Dany Boon - aqui, no papel de Antoine, um dos subordinados de Philippe em Bergues – retira a graça de seu roteiro.

No entanto, quem não tem familiaridade com o idioma francês terá certa dificuldade para entender as nuances de algumas situações, pontuadas pelas diferenças de pronúncia. Tal como um brasileiro desavisado que tentasse compreender piadas por distinções linguísticas entre diferentes países e culturas hispânicas.

Sem que seja original ou imprevisível, o filme de Boon traz uma mensagem humorada dentro do que há de mais perverso na origem do preconceito: o simples desconhecimento. Dedicado a sua mãe, sua produção não poderia ser mais oportuna em um país que quer mostrar que a intolerância passou a ser intolerável não só para quem sofre os efeitos dela.
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