O Inferno de Henri-Georges Clouzot é um documentário sobre aquele que poderia ter sido um dos maiores filmes da história – não fosse uma série de infortúnios que obrigou o projeto a ser abortado de vez, e só retomado de forma bastante diferente nos anos de 1990, pelo francês Claude Chabrol, num filme que no Brasil recebeu o título de Ciúme - O inferno do amor possessivo.
Ao centro do documentário está o diretor, chamado de o Hitchcock francês, autor de filmes como Salário do Medo, e As Diabólicas. Conhecido por seu perfeccionismo, perto dele, cineastas com Stanley Kubrick e Terrence Mallick trabalhavam até que rápido. A verdade é que, pelo que se vê das imagens perdidas e que foram recuperadas de O Inferno, seria um grande filme – não tanto por sua trama, mas, especialmente pelo seu experimentalismo visual.
Em 1964, Clouzot começou a rodar O Inferno em uma cidadezinha litorânea. O maior nome do elenco era a austríaca Romy Schneider, que com sua beleza parecia seduzir os homens e despertar o ciúme doentio de seu marido, vivido pelo ator Serge Reggiani.
Clouzot era ambicioso e sua ambição não era desmedida. Em O Inferno, ele queria, e conseguiria, quem sabe, revolucionar o cinema. Em seu filme combinaria imagens em preto e branco com outras envolvendo luzes coloridas, planos e enquadramentos diferentes – tudo para traduzir em imagens o ciúme doentio do personagem central.
O documentário só existe graças ao trabalho dos diretores Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Ele é especialista em restauração de filmes em película. Quando descobriu, com a viúva de Clouzot, mais de 15 horas de material filmado, interessou-se pelo que encontrou.
Contando com depoimentos de pessoas como Costa-Gravas, que era assistente de direção de Clouzot, a atriz Catherine Allegret, e o assistente de fotografia William Lubtchansky, o documentário mostra os dilemas e ansiedades que dominavam o set. O filme, porém, não aborda uma questão que parece central para compreensão do estado emocional do diretor, que na década de 1930 passou um tempo num manicômio.
O título do documentário, sagazmente faz um jogo de palavras, entre O inferno, o filme que Clouzot tentou fazer, e o calvário que ele passou nessa época, que culminou num infarto. Ao final, o documentário deixa um gosto daquilo que o longa do francês poderia ter sido, se tivesse ficado pronto. As imagens de arquivo servem para mostrar que se perdeu um belo filme.
