O documentário “No Meio do Mundo”, investiga a vida de pessoas que praticamente não têm nada a não ser as suas vidas. Depois que eles nascem, seguem em frente em meio a pobreza com o sonho de superar as dificuldades, ou simplesmente sobreviver. O habitat é São Caetano, em Pernambuco, uma cidade pequena que não oferece praticamente nenhuma oportunidade de futuro.
Dois meninos sonham em conquistar o mundo, em cair na estrada, como motoristas de caminhão. Esse sonho é fruto daquilo que veem em seu cotidiano num posto de gasolina na beira de uma estrada. A vida em família também não traz consolo ou esperanças, falta comida, faltam coisas básicas, mas essas pessoas nunca pensam em desistir.
Dirigido pelo francês Jean-Pierre Duret e a brasileira Andrea Santana, “No meio do mundo” é um documentário feito com uma linguagem poética, com belas imagens de uma crueza assustadora de uma realidade tão distante dos grandes centros urbanos, mas, ao mesmo tempo, pungente. Durante seis meses, a dupla de cineastas ficou num posto de gasolina e em seus arredores.
Os dois garotos, Cocada e Nego, são o fio condutor, e eles agregam outros personagens que entram e saem de “No meio do mundo”. Caminhoneiros são as figuras paternas, são aquelas pessoas que alcançaram os sonhos que esses meninos aspiram. São Paulo é um destino distante, tão convidativo quanto assustador.
A câmera de Duret e Andrea nunca é intrusiva, sempre observa a certa distância, sem paternalismos. Com eles acompanhamos a vida de pessoas simples, um cotidiano que faz um contraponto ao discurso inflamado do presidente Lula em campanha eleitoral na região. Um ciclo de miséria e dificuldades parece se perpetuar para os personagens do filme. A mãe de Nego, Inácia, tem 9 filhos e está grávida, e sempre foi abandonada pelos pais de seus filhos.
A crueldade da vida, da falta de perspectivas, da falta de dinheiro e condições fazem lembrar momentos dignos de figurar em “Os esquecidos”, de Luis Buñuel, no qual a o pobreza é a mola que instiga a mudança, ou se transforma em apatia. Aqui, os personagens têm o futuro em aberto, e a chance de mudar não está necessariamente atrelada ao crime.
“No meio do mundo” é um filme que levanta questões, que instiga o debate sobre o Brasil contemporâneo, sobre o mundo em que vivemos. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para que seus personagens façam uma jornada em busca de suas identidades. O resultado é um filme tão belo quanto inquietante. É uma realidade dura – exatamente porque está bem aqui, perto de todos nós.
