04/06/2026
Drama

História Real

Idoso e com um sério problema no quadril que o obriga a usar uma bengala, Alvin Straight decide atravessar os 700 km que o separam do irmão, com quem não fala há dez anos, depois que descobre que este sofreu um derrame. Empenhado neste agora inadiável ajuste de contas com o passado, Alvin Straight junta suas escassas economias e assume a direção do único meio de transporte que a sua falta de habilitação permite conduzir: um trator-cortador de grama.

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Foi preciso que David Lynch, o cineasta da estranheza, visitasse o mundo do melodrama para lembrar que é possível povoá-lo sem resvalar na pieguice. Provando, em outras palavras, que a visão de um único ser humano em sua essência basta para evocar sua fragilidade e grandeza a olho nu, sem nenhum artifício.

Com uma naturalidade que é também uma crueza - por contradição, quase delicada - Lynch afasta os véus da figura alquebrada do velho Alvin Straight (Richard Farnsworth, indicado ao Oscar). O que resulta é uma poderosa simplicidade. Este despojamento no estilo que mostra os ossos emocionais do personagem e o andaime de sua peculiar biografia bastam. A história é tão boa que o diretor acreditou nela o bastante para abandonar, ainda que temporariamente, seu habitual estilismo a serviço do bizarro, tão cultuado em filmes como Veludo Azul, Coração Selvagem, A Estrada Perdida e no recente Mulholland Drive - prêmio de melhor direção em Cannes/2001 que os muitos prêmios de associações de críticos americanos e as indicações ao Globo de Ouro parecem conduzir em direção a uma nova disputa do Oscar.

Guardião de um universo paralelo criado pelos muitos recursos de sua imaginação e técnica, Lynch revela-se à altura de tocar um projeto dotado de uma simplicidade tamanha que deve ter sido, para ele, o desafio que o levou a aceitá-lo. Mas é de justiça atribuir ao protagonista Richard Farnsworth a outra chave desta engrenagem que põe o filme em movimento. Farnsworth era mesmo idoso ao fazer o filme (tinha 79 anos), tinha realmente um problema no quadril que o obrigava a usar bengala e estava mais doente do que se via a olho nu. Seu câncer ósseo o afligiu a ponto de levá-lo ao suicídio poucos meses depois da cerimônia de um Oscar que ele não levou. Este detalhe trágico soma ainda mais verdade ao perfume de que o ator impregna seu magnífico personagem, aliás, tirado de uma crônica de jornal. Não poderia haver melhor despedida para um fino intérprete, cujo valor passou tão despercebido antes, escondido por trás de uma longuíssima carreira como dublê.

Depois de ter dirigido uma carroça em Os Dez Mandamentos (56), de Cecil B. DeMille, e sido dublê exclusivo do caubói Roy Rogers por quase dez anos, Farnsworth tornou-se ator, quase sempre coadjuvante. Antes de História Real, fora protagonista uma vez, no faroeste A Raposa Cinzenta (82). Estava aposentado havia dois anos quando Lynch o convidou para o filme, incorporando sua bengala ao personagem que decide atravessar os 700 km que o separam do irmão (Harry Dean Stanton), com quem não fala há dez anos, depois que descobre que este sofreu um derrame.

Disposto a um agora inadiável ajuste de contas com o passado, Alvin Straight apodera-se de suas escassas economias e ocupa o único meio de transporte que a sua falta de habilitação permite conduzir: um trator-cortador de grama. E assim parte, deixando para trás a única filha (Sissy Spacek, em outra interpretação breve mas dilacerante), sem nenhuma certeza, nem mesmo a de que encontrará o irmão vivo. Por isso é que a trajetória do inabalável Alvin comove tanto e faz torcer por ele. Aventureiro mais destemido e impossível de demover de seu objetivo será mesmo difícil de encontrar. Pena que, mais uma vez, por conta dos insondáveis descaminhos da distribuição de filmes no Brasil, este pequeno clássico demorou tanto a chegar às telas nacionais.

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