Diz a sabedoria popular que “ser mãe é padecer no paraíso”. Mas isso, às vezes, pode envolver uma passagem pelo purgatório, como bem mostra o drama O estranho em mim. Coescrito e dirigido pela alemã Emily Atef, em 2008, o longa levou o prêmio de melhor longa e atriz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano.
O estranho em mim tem como tema algo tão delicado quanto raro de ser tratado no cinema: a depressão pós-parto. Há uma indagação central no filme quanto às expectativas sobre o papel de uma mãe na sociedade contemporânea. Um assunto que não tem sido exclusivo da era atual, mas agora fica mais evidente como a mulher é obrigada a se dividir em múltiplas funções em casa e no trabalho.
A atriz Susane Wolff é Rebecca, que, na faixa dos 30 anos, espera seu primeiro filho ao lado do marido, Julian (Johann von Bülow). O casal tem uma floricultura. Até o parto, a vida caminha nos eixos, mas a chegada do pequeno Lucas a transforma radicalmente. Nada parece estar direito, o bebê não consegue mamar, a mãe tem pouco leite, ele chora o tempo todo e ela não sabe o que fazer. Aos poucos, Rebecca sente que perde sua identidade como mulher para tornar-se apenas mãe.
A questão é: como conciliar tudo isso? Como não ser apenas mãe, mas incorporar essa nova realidade à vida? Rebecca não sabe e isso a incomoda. Alguns episódios levam a personagem a separar-se do filho. O marido se volta contra ela. A mãe de Rebecca (Maren Kroymann, de A onda) precisa vir do Canadá para a Alemanha especialmente para cuidar da filha nesse momento crítico.
Emily e sua corroteirista Esther Bernstorff buscam o que há de mais humano em seus personagens. Assim, não há bons ou maus, mas seres humanos com seus motivos. O que parece certo para alguns, é errado para outros. Julian culpa Rebecca e briga com ela, mas nem por isso torna-se um monstro. Aliás, nem ela. A forma como a personagem é apresentada faz com que o público torça pela sua recuperação.
No fundo, O estranho em mim é mais um retrato de uma mãe-coragem, cujo maior inimigo é ela mesma. A interpretação contida de Susane Wolff traz um realismo benvindo a O Estranho em mim, o que transforma a experiência de ver o filme em algo compensador.
