15/06/2026
Drama

Um doce olhar

O pequeno Yusuf vive com os pais numa região remota da Turquia. Quando o pai, que é apicultor, sai em viagem e não volta mais, o menino começa a descobrir a realidade da vida.

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Em um dos momentos mais bonitos de Um doce olhar, o pequeno protagonista, Yusuf (Bora Altas), está aprendendo a ler. Ele gostaria de ler o texto em voz alta para todos na classe, mas tem dificuldades. Por isso, ele decora, palavra por palavra, aquilo que uma coleguinha lê. Quando finalmente cria coragem para oferecer-se para a leitura, o professor lhe indica outro texto. Ele não consegue sair das primeiras palavras e começa a gaguejar.
 
Esta parece ser uma das primeiras decepções do jovem Yusuf, protagonista de uma trilogia escrita e dirigida pelo turco Semih Kaplanoglu. Um doce olhar é o terceiro filme da série e ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro passado. O título original do filme, Bal, quer dizer “mel”. Os outros dois longas são Yumurta (“Ovo”), de 2007, e Süt, (“Leite”), de 2008 – ambos inéditos em circuito comercial brasileiro, mas exibidos em festivais, como a Mostra Internacional de São Paulo.
 
Cada um dos filmes retrata uma fase na vida de um mesmo personagem, Yusuf – o que não quer dizer que sejam, necessariamente, a mesma pessoa. Em Ovo, ele é um homem maduro, um poeta de pouco sucesso, dono de um sebo que volta à cidade natal para o funeral de sua mãe. Em Leite, está no final da adolescência, não consegue entrar numa universidade, sonha em escrever poesias e não é aceito no serviço militar. Cada filme pode ser visto de forma independente, pois se encerra em si mesmo. Mas, obviamente, a trilogia completa – um retrato às avessas de um homem, da maturidade à infância – traz mais camadas de compreensão sobre o personagem.
 
Em Um doce olhar, o pequeno Yusuf, de 6 anos, mora numa província cercada de montanhas no norte da Turquia. O pai, Yakup (Erdal Besikcioglu), é apicultor, e mãe, Zehra (Tulin Ozen), plantadora de chá. O menino é de poucas palavras, e, na escola, apresenta dificuldades de aprendizado. Um pedagogo ou psicólogo logo diagnosticaria uma dislexia, Talvez o problema seja apenas uma timidez excessiva. A dificuldade de aprendizagem e relacionamento e a gagueira podem ser uma consequência de sua ansiedade.
 
O pai, Yakup, é o vínculo mais forte para o menino. Juntos eles saem em busca de lugares onde colocar colmeias para a produção do melhor mel. A floresta é um lugar de encanto, mas também mistério. Nunca se sabe o que pode estar escondido no meio das árvores. E quando Yakup sai para uma viagem sozinho, Yusuf fica isolado em seu próprio mundo.
 
Um doce olhar é o filme sobre a perda da inocência, sobre a descoberta do mundo – especialmente as decepções – e como isso molda uma pessoa. Yakup custa a voltar de sua viagem – talvez nunca volte, como indica a primeira cena. Ainda assim, o menino precisa sobreviver a essa ausência. Nesse estágio da infância, mãe e filho são amigos, mas um tanto distantes. Só mais tarde uma cumplicidade se estabelecerá entre os dois, em Leite.
 
Kaplanoglu é um diretor de filmes com planos longos e diálogos contidos – especialmente em Um doce olhar. Pouco se diz, mas muito acontece nos olhares, nas ações e reações de seus personagens. Há também pouca música em seus filmes, apenas nos momentos-chaves.
 
Neste último filme da trilogia, o diretor trabalha com uma fotografia mais escura – assinada por Baris Ozbicer, em seu primeiro trabalho com Kaplanoglu. A luz nas cenas de interiores, especialmente na casa da família de Yusuf, faz lembrar os quadros do pintor holandês Vermeer (1632-1675).
 
A beleza visual, a profundidade da narrativa e dos personagens, nada disso funcionaria se Kaplanoglu não tivesse um bom ator no papel de Yusuf. E o pequeno Bora Altas é tão comovente quando encantador. Seu personagem, com a curiosidade infantil para a qual tudo é novidade, está descobrindo a poesia que existe no mundo, apesar das contrariedades.
 
Como nos outros longas da trilogia, Kaplanoglu é um diretor que conduz seus filmes com mão firme e, por isso, a forma se sobressai ao conteúdo. O que vemos é mais o trabalho de um autor do que a narrativa que flui. Se isso acontece algumas vezes, em Um doce olhar não é necessariamente um problema no final. Pois o que se descobre é um cineasta ciente de seu ofício e das ferramentas que o cinema lhe oferece.
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