Documentarista que há anos trabalha como assistente e pesquisadora de Eduardo Coutinho – em filmes como Edifício Master (2002), Peões (2003) e O Fim e o Princípio (2005) –, além de ter já estreado como diretora (no documentário Morro da Conceição, de 2005), Cristiana Grumbach debruça-se sobre o tema que está escorando alguns dos maiores sucessos recentes do cinema brasileiro, o espiritismo, em seu filme As Cartas Psicografadas por Chico Xavier.
A diretora entrevista diversos pais e mães que perderam seus filhos e recorreram ao médium Chico Xavier (1910-2002) para comunicar-se com eles. Uma característica em comum a todos é que a morte dos filhos ocorreu na infância e juventude – um fator a mais para a dor e o inconformismo que sentem.
A ausência desses entes queridos é representada por cadeiras vazias – um recurso que, às vezes, se torna exasperante, pela demora da persistência dessa imagem na tela. No mais, há muitas palavras para lembrar dos que se foram, inclusive o conteúdo dessas cartas, que são lidas em off pela própria diretora.
Chama a atenção a semelhança do tom e da linguagem dessas mensagens supostamente recebidas do além. Todas começam invariavelmente com “querida mãezinha” e exibem um vocabulário de pessoa com algum estudo. Essa unidade das cartas, apesar da diversidade, inclusive cultural, das pessoas que as teriam transmitido, não incomoda nenhuma das mães e pais. Todos declaram a Cristiana acreditarem piamente de que se trata de uma comunicação do próprio filho ou filha - o que seria comprovado, segundo eles, por detalhes ou pessoas mencionados na carta, dos quais o médium não teria conhecimento prévio.
Independentemente da opinião que se tenha sobre o espiritismo, é visível a autenticidade da dor de todas essas pessoas – uma dor tão avassaladora que é preciso preencher com alguma coisa. Alguns, como um casal judeu, chegaram a afrontar a própria religião para recorrer ao médium – e a aflição dessa mãe é, talvez, o momento mais comovente do filme.
Selecionado para os festivais de Paulínia e Ouro Preto, o documentário ressente-se, porém, de algum posicionamento da diretora. Num determinado depoimento, uma mãe, que perdeu dois filhos, questiona-a: “Você não acredita, não é?”. Cristiana titubeia. E perde uma ótima oportunidade de incorporar a própria dúvida ao tecido mesmo do filme – como fez Eduardo Coutinho, num momento de O fim e o princípio, em que um dos velhinhos que entrevistava o confronta sobre não acreditar em Deus.
Apesar desta timidez, é benvindo um olhar documental sobre este tema, que está arrebatando milhões de espectadores no Brasil este ano, com os sucessos Chico Xavier e Nosso Lar.
