Seres urbanos num lugar tão primitivo são quase como alienígenas e até são forçados a se comportar como tal. Atos cotidianos banais na cidade, como lavar o rosto, fazer a barba e tomar chá tornam-se tarefas de atleta em casinhas apertadas como estas, desprovidas de água encanada, encarapitadas umas junto às outras em dois ou mais andares, em ruelas em que a poeira parece mais densa do que o ar.
A precariedade obriga a uma adaptação a um modo de vida singular - e algum aspecto dele é o que interessa aos homens da cidade. Seu objetivo, porém, não é claro, ainda mais que são liderados por um certo "Engenheiro"(Behzad Dourani), que, apesar de parecer um técnico, não desgruda de sua máquina fotográfica.
Nesse estilo iraniano de filmar, a passagem do tempo em ritmo quase real conduz a narrativa que às vezes nem parece ter destino certo. Mas é claro que essa aparente incerteza nada mais é do que um recurso que se justifica logo à frente. Enquanto isso, Kiarostami muitas vezes diverte o espectador, especialmente o urbano, ao fazê-lo observar na tela como os menores incidentes do dia-a-dia rural são capazes de roubar-lhe o rumo. Poucos deixarão de identificar-se com a epopéia quase diária do "Engenheiro" apenas para receber uma ligação em seu celular. Mal toca o aparelho, ele pede ao interlocutor que não desligue, pega o carro ultramoderno e corre montanha acima para tentar manter o sinal - sem sucesso, muitas vezes.
A própria permanência da equipe na aldeia, entretanto, indica que sua missão, qualquer que seja, ainda não teve sucesso. Há sinais de que a câmera deles procura surpreender um ritual nunca visto, o que cria suspeitas entre os camponeses. Há tempos e culturas distintos em choque no meio da poeira dourada desta aldeia, magnificamente fotografada por Mahmud Kalari. É o pó do tempo que preocupa Kiarostami, que já fez uma aguda elegia da morte no poético Gosto de Cereja, em que era visível uma filosofia mais profunda. E O Vento Nos Levará tem raízes mais superficiais mas, ainda assim, é um trabalho que merece atenção.
