Nesta sexta (3-12), quando o cineasta Jean-Luc Godard completa 80 anos, chega aos cinemas brasileiros seu mais novo longa Film Socialisme, que teve sua primeira exibição na mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, em maio passado.
Para aqueles que acham os últimos filmes de Godard ininteligíveis, agora há mais um agravante. A distribuidora do novo longa, Imovision, lança em São Paulo duas versões de Film Socialisme. Os dois são idênticos, exceto pela legendagem. Uma delas segue as diretrizes dadas pelo cineasta, traduzindo apenas algumas palavras de alguns diálogos. Ou seja, quem não compreende francês não entenderá praticamente nada.
Essa versão será exibida apenas em duas sessões em uma sala na cidade de São Paulo. Nas demais sessões, e nas demais cidades, o filme será exibido em cópia digital e completamente legendado.
Em seus filmes mais recentes, como Elogio do Amor, Nossa Música e nesse Film Socialisme, Godard se mostra mais esteta e fragmentado do que nunca. Ele parece combinar seu cinema dos anos de 1960 com o experimentalismo que realizou – o texto e a imagem, na maioria das vezes, são discordantes.
Há algumas linhas narrativas tênues, mas o que mais aparece em Film Socialisme é um discurso metralhador sobre o declínio moral e cultural da Europa e a ascensão econômica dos Estados Unidos, que gerou o seu império.
O filme é dividido em três movimentos, como define o diretor. O primeiro acontece num cruzeiro pelo Mediterrâneo. Em outro, um casal de filhos convoca uma espécie de julgamento de seus pais, no qual emergem os ideais da Revolução Francesa. E, por fim, surgem lugares históricos, como Egito, Palestina e Odessa, onde se visita as famosas escadarias onde aconteceu um massacre, em 1905, recriado no Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein.
Como acontece muito nos delírios godardianos, entender não é fundamental, talvez nem possível. Tentar decodificar o texto – que inclui citações de escritores como Joseph Conrad, Balzac (cujos textos uma personagem lê para uma lhama) – é bobagem. Para quem, ainda assim, se interessa por Godard, basta um mergulho no filme. Aos demais, sobra a frustração – que pode ser ainda maior dependendo da legendagem – e o esforço vão de compreender o incompreensível.
