Elza Soares, 73 anos, já viveu muitas vidas. Menina de favela, mãe e viúva precoce, cantora que cavou seu espaço à unha na Música Popular Brasileira, mulher sensual e satanizada por ter conquistado Garrincha quando o ídolo do futebol ainda era casado. Essa biografia acidentada só de relance entra em Elza, o documentário de Izabel Jaguaribe (Paulinho da Viola – Meu tempo é Hoje) e Ernesto Baldan, cujo foco está na singularidade artística de sua protagonista.
A particularidade de seu timbre rouco – que ela garante ter esculpido enquanto carregava latas d’água na cabeça na favela – e sua versatilidade na emissão de voz e divisão das notas é tema de conversas e depoimentos de colegas declaradamente apaixonados pela cantora: como Maria Bethânia, Caetano Veloso e Paulinho da Viola, que cantam com ela músicas como “Morena Rosa”, “Samba da Benção”, “Sei lá Mangueira” e “A Flor e o Espinho”.
A interpretação destas e de outras magníficas canções – que colocam em foco a extraordinária riqueza da MPB, tantas vezes desprezada pela maioria das rádios – é, em boa parte, prazerosa. Mas eventualmente o tom excessivamente celebratório e até a extensão dos números musicais, que ocupam boa parte dos 80 minutos do filme, chega a cansar. Num documentário que, em si, não é longo, este sentimento de que se arrasta é um sinal de erro de abordagem. Elza é uma personagem múltipla, vulcânica, difícil de captar – e o filme parece muitas vezes ter-se perdido neste caleidoscópio, ganhando tempo com as canções.
As melhores definições da esplêndida cantora vêm pela boca de Paulinho da Viola – que a compara a Billie Holiday e Dalva de Oliveira, duas outras que “incomodaram da melhor maneira” -, José Miguel Wisnick (uma “roqueira do samba”, referindo-se à sua recusa de ficar restrita ao gênero, em que ela brilha como poucas) e João de Aquino, perfeito quando diz que quem quiser entendê-la tem que entender o canto dela.
Todos esses comentários são ótimos, mas percebe-se que as entrevistas com a própria Elza não renderam o que deviam. Salvam-se alguns momentos preciosos, quando ela comenta o quanto ama improvisar e porque “não vai jogar a toalha nunca”. Ainda bem.
