28/06/2026
Drama

Onde Fica a Casa do Meu Amigo?

Mohammad já esqueceu duas vezes em casa seu caderno, o que levou seu professor a ameaçar expulsá-lo se houver uma terceira vez. Quando seu colega, Ahmad, leva por engano o caderno de Mohammad para sua casa, fica desesperado para devolvê-lo. O que envolve idas e vindas à aldeia onde o outro mora e encontros com diversos personagens.

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Décadas depois que o neorrealismo reinventou o cinema italiano no pós-II Guerra Mundial, os cineastas iranianos se apropriaram do seu despojamento colado na realidade imediata e o reinventaram em seus próprios termos em filmes que se tornaram sua marca registrada. 
 
Um deles foi o sublime Abbas Kiarostami (1940-2016), que deixou atrás de si uma obra que conjuga uma atenta observação de seus personagens - na maior parte das vezes, escolhidos entre atores não-profissionais - e da natureza, impregnada de uma aguda sensibilidade artística. Além de cineasta, Abbas era fotógrafo, artista plástico e poeta e tudo isso transparece em seus filmes.
 
Em Onde fica a casa do meu amigo ? (1987), premiado no Festival de Locarno 1989, exercita-se a sutil contenção desse cinema cru, que colhe suas emoções do subtexto, do não-declarado e também daquilo que o espectador tem que ir buscar. O enredo é mínimo. Depois de presenciar a bronca de seu professor (Khodabakhsh Defaei) na escola quando seu colega, Mohammad Nematzadeh (Ahmed Ahmed Poor) esqueceu, pela segunda vez seu caderno, o coleguinha Ahmad (Bebek Ahmed Poor) entra em pânico quando percebe que levou o caderno do outro, juntamente com o seu, para sua casa. A partir daí, sua jornada se transforma numa luta incessante para descobrir onde mora o amigo e devolver-lhe o caderno, evitando sua expulsão da escola, prometida pelo professor.
 
Da espontaneidade destes rostos infantis, reproduzindo situações muito próximas de seu cotidiano, o filme extrai outros sentidos. Como o da quase invisibilidade das crianças, a quem os adultos em geral não escutam, desconsiderando suas aflições. Mesmo a mãe (Iran Outari) mostra-se irredutível, ignorando o empenho de Ahmad para devolver o caderno e enchendo-o de tarefas domésticas. As crianças, neste contexto rural e tradicional, são vistas de maneira um tanto funcional, como ajudantes para toda obra e condenadas a uma obediência que se pretende cega.
Os eventuais diálogos com os adultos evidenciam a latência de valores arcaicos, como as falas do avô de Ahmad sobre a pronta obediência, ainda que arrancada à custa de surras, como foi o seu caso. 
 
Ahmad, no entanto, resiste aos obstáculos, mostrando-se inflexível em sua missão de devolver o caderno, assumindo o caso como um dilema moral. Isso o leva a enfrentar um longo caminho a pé, rumo à aldeia onde mora o colega e que ele não conhece.
 
Nesse emaranhado de ruas desconhecidas, incidentes e falsas pistas, Ahmad encontra um velho homem (Hamdallah Askar Poor) que, finalmente, mostra alguma simpatia para guiá-lo a uma casa que pode ser a que o menino procura. Nesta conversa, o homem desfia um lamento pela substituição, na aldeia, das portas de madeira, seu antigo métier, pelas portas de ferro. Na arquitetura, afinal, parece haver menos rigidez do que nas relações entre as gerações, ainda que a arte, no caso, esteja sendo prejudicada em prol de uma promessa de maior segurança.

Construindo sua história singela com uma câmera inquieta e muitas elipses, Kiarostami conclui seu pequeno conto com uma lição de solidariedade e empatia entre os meninos, criando espaço para que brote uma ética de solidariedade irmanando os mais fracos. Nesta pequena joia de simplicidade, o diretor aponta já algumas características de uma obra que se cristalizaria em tantas posteriores obras-primas, como Gosto de Cereja (1997), Dez (2002) e Cópia Fiel (2010). 

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