Marcelo Nascimento da Rocha é uma figura fascinante. Capaz de aplicar os mais engenhosos golpes, ele está preso. Já se passou por empresário de artistas, filho do dono da Gol e membro do PCC. Nesse documentário, Mariana Caltabiano procura o personagem verdadeiro por trás daquele interpretado por Wagner Moura em “Vips”.
- Por Alysson Oliveira
- 10/05/2011
- Tempo de leitura 3 minutos
O documentário Vips – Histórias reais de um mentiroso, de Mariana Caltabiano, tem o poder de fascinar o público em mais de um nível. Em primeiro lugar, há a figura de Marcelo Nascimento da Rocha, famoso golpista, que também foi tema de Vips, ficção de Toniko Mello, com Wagner Moura no papel principal. Mas há também a figura da própria Mariana, que sofre uma transformação pessoal no processo de feitura do documentário – e isso fica evidente.
Vips – História reais de um mentiroso é um jogo de poder, entre a documentarista e o seu objeto de estudo, Marcelo. Para entender, é preciso voltar no tempo. Em 2001, o rapaz se fez passar por dono da companhia aérea Gol e enganou muita gente no Recifolia daquele ano – entre eles, o jornalista Amaury Jr, que o entrevistou em seu programa de TV, o ator Ricardo Macchi e o organizador do evento, o empresário pernambucano Ed Sá. Marcelo foi preso e virou matéria na revista Época.
Mariana o procurou tempos depois querendo publicar sua história em um livro. Ele topou, voltou atrás, mas o livro acabou saindo e, mais tarde, o filme de ficção, com o qual a diretora colaborou nas primeiras versões do roteiro. Durante um ano, ela o entrevistou no Centro de Triagem de Curitiba, onde ele estava preso. Ao longo do filme, Marcelo faz jus à sua fama de camaleônico e muda de aparência a cada entrevista.
Mas, mais interessante do que isso, é a investigação feita pelo documentário sobre o personagem, suas ações e desdobramentos. As conversas da diretora com Amaury Jr, Macchi e Sá, além da atriz Maria Paula, são elucidativas e explicam muito sobre o fascínio que as pessoas ricas e poderosas exercem no mundo contemporâneo – mesmo que o poder e a riqueza sejam irreais.
O filme não procura explicar o comportamento de Marcelo – o que é ponto para Mariana, que sagazmente expõe seu personagem, mas não tenta desvendá-lo. Ela deve saber que tal atitude seria em vão, porque o comportamento e atitudes de Marcelo são complexos demais para serem entendidos nas palavras de um psicólogo ou antropólogo, ou qualquer outro especialista. Aqui, o documentário deixa o espaço para que seu público pense.
Numa segunda camada, o filme traz a própria Mariana, amadurecendo como cineasta e se transformando como ser humano. Se, no princípio, ela aparece como uma garota animada por ter conseguido um assunto tão empolgante para o seu primeiro filme, ao longo do processo surge um olhar mais crítico, que deixa de lado um leve deslumbramento inicial para comentar a necessidade quase infinita de Marcelo em enganar as pessoas.
Quando perdeu dois irmãos em 2007, no acidente com um Airbus A-320 da TAM, Mariana acabou recorrendo a Marcelo, cuja analise bastante lúcida e pertinente de gravações da cabine de comando daquele voo a ajudaram na investigação. Essa é a Mariana que vemos ao final do filme, um tanto decepcionada com o comportamento de Marcelo, que insiste em dar golpes mesmo sem precisar.
No documentário Vips – Histórias reais de um mentiroso encontra-se também uma meditação sobre o peso e o valor da verdade – ou, em outras palavras, o poder da ficção.
