EmInfidelidade, armado de um roteiro que reflete o pior momento da dupla Alvin Sargent (Oscar por Julia e Gente como a Gente) e William Broyles Jr. (Apollo 13, Náufrago e Planeta dos Macacos), Lyne monta seu habitual cirquinho de perversões de butique e limita-se a puxar as cordinhas por trás de cada uma das marionetes da trama - pois de personagens reais não se trata. Constance, ou melhor, Connie Sumner (Diane Lane), é a típica perua casada e bonita de classe média alta, mofando de insatisfação sufocada numa daquelas casas maravilhosas que têm tudo dos prósperos subúrbios de Nova York. O filho (Erik Per Sullivan) e o marido bonitão mas desatento e superocupado, Edward (Richard Gere), não têm mesmo como mantê-la ativa e energética todo o tempo. Assim, num dia de ventania infernal, ela anda pelas ruas com as sacolas dos presentes de aniversário do filho nas mãos, quando o destino, esse perverso, a conduz rumo a um fatídico encontrão com um livreiro, Paul Martel (Olivier Martinez).
Bem mais jovem do que seu marido e francês, como convém a um chavão sobre a sensualidade (bem como referência à inspiração, muito vaga, da história em A Mulher Infiel, de Claude Chabrol), Paul desarruma a vida certinha de Connie, introduzindo em sua vida o sexo selvagem com algumas pitadas de perversão. Numa cena, ele pede à amante que lhe bata - apenas para que, quando ela o faz, ele dê vazão a uma agressividade que procura lembrar ao distinto público qual a natureza do vínculo entre os dois: algo assim como a conceituação binária entre crime e pecado.
Fiel à receita de Lyne, porém, o terceiro ato existe apenas para reintroduzir a culpa, a tragédia e a punição, com imagens de uma redundância atroz: a bicicleta que cai no gramado da casa de família, as luzes que mudam de verde para vermelho no farol. No final das contas, fica difícil decidir se o que incomoda mais no trabalho de Lyne é o moralismo ou a falta de imaginação.
Cineweb-14/6/2002
