03/06/2026
Drama Comédia

Minhas Tardes com Margueritte

Germain mora numa cidadezinha francesa e tem sérios problemas com sua mãe, que está cada vez mais longe da realidade. Ele também não é lá muito esperto, mas vai tocando a vida até ficar amigo de uma senhora apaixonada pela literatura. Isso muda a vida de ambos.

post-ex_7
Minhas tardes com Margueritte traz um tema caro ao cinema: a amizade entre estranhos. A maior qualidade desse longa francês é o desempenho de seus dois protagonistas, Gérard Depardieu e a nonagenária Gisèle Casadesus. Eles tornam verossímeis dois personagens que muito facilmente cairiam no clichê.
 
Dirigido e roteirizado por Jean Becker – a partir de um romance de Marie-Sabine Roger –, o longa tem muito a ver com um dos filmes mais famosos do diretor, Conversas com meu jardineiro. A obra do cineasta (que inclui Verão Assassino) prima pelo humanismo, e aqui não é diferente. Ao centro, estão Germain (Depardieu), uma espécie de faz-tudo numa pequena cidade, e Margueritte (Gisèle), uma senhora apaixonada por livros.
 
A amizade entre os dois surge de um encontro numa praça onde ela sempre se senta para ler, e ele para fazer o seu lanche. Eles começam a conversar sobre os pombos – o rapaz dá nome a todos eles – e são capazes de identificar um a um. Ela, por sua vez, é uma ávida leitora e sugere compartilhar com o novo amigo um romance. Margueritte lê em voz alta para Germain “A peste”, de Albert Camus.
 
Essa amizade, é claro, estabelece novos padrões para a vida de cada um deles. Germain é semi-analfabeto e fala muita bobagem sem pensar – mas seu coração enorme acaba compensando muitas de suas falhas. Por outro lado, ele se torna a companhia ideal para a vida solitária de Margueritte, que mora numa casa para idosos e recebe visitas bem esporádicas de um sobrinho que vive na Bélgica.
 
O reflexo da amizade também acontecerá na conturbada relação de Germain com sua mãe, interpretada por Claire Maurier, e Anne Le Guernec, nos flashbacks. O personagem nunca conheceu o pai, nem recebeu muita atenção da mãe. Agora, a situação só piora com a esclerose da mulher que, mais do que nunca, vê no filho um inimigo, ou algo parecido.
 
O que há de mais belo em Minhas tardes com Margueritte é como categoricamente o filme renega clichês um após outro, até seu final. Construindo personagens humanos e com dramas bem palpáveis, Becker cria um trabalho delicado e bastante honesto até o fim, quando poderia ter sucumbido a lágrimas fáceis.
post