A classe média sofre. Mas a nova classe média sofre ainda mais, porque além de se equilibar em seu novo status social, precisa descobrir e registrar os códigos de conduta da ascensão recém-adquirida. Pacific é um documentário que registra bem esse dilema dos novos quase-ricos que se dividem entre manter sua identidade de origem e tentar parecer aquilo que não é.
O documentário de Marcelo Pedroso consiste de imagens captadas por passageiros do cruzeiro Pacific rumo a Fernando de Noronha. O diretor tinha alguns ‘olheiros’ infiltrados no navio, que, ao final da viagem, pediram para passageiros para ceder suas próprias captações. O longa orquestra, na montagem, essa fragmentação. O retrato da nova classe média que vemos em Pacific são de pessoas com dinheiro, mas ainda em processo de, por assim dizer, aquisição de cultura.
Pedroso, em seu filme, não faz nada demais com as pessoas a não ser organizar as filmagens caseiras – e a maioria delas não esconde isso – e montar um filme a partir dessas gravações. As figuras que aparecem no filme falam por si próprias – em mais de um sentido. Essa nova classe média está preparada para desfrutar de seu novo poder aquisitivo? Sabe como lidar com seu dinheiro e as consequências deste? Na frente das câmeras, o deslumbramento com as mordomias que o dinheiro pode comprar.
Pacific, que, de certo modo, parece um filme de tese, diz não. O público invade o privado, e todos se encontram na frente da câmera em imagens que iriam parar numa reunião na sala de parentes, ou mesmo no youtube. Mas, nesse ponto, o documentário levanta uma questão em suas entrelinhas: é realmente necessária essa exposição das pessoas? Claro, todos concordaram em ceder suas imagens, mas isso justifica o filme da forma como ele é? As imagens captadas por pequenas câmeras – para um registro doméstico – ganham outras proporções quando exibidas ampliadas na tela do cinema. É uma mudança não apenas de tamanho físico, mas também a reverberação de significados. Enquanto, a pirori, era apenas um registro para mostrar para família ou jogar ao acaso na internet ganha ares de importância – como um registro para a posteridade.
