O primeiro longa da dupla Felipe Bragança e Marina Meliande, A fuga da mulher gorila, chega aos cinemas depois do segundo, A alegria, que está em cartaz em algumas cidades do pais. No longa de estreia dos diretores já é possível encontrar elementos que estariam presentes em suas obras, como o universo adolescente e a desolação que move os personagens.
Aqui, ao centro estão duas irmãs, que vivem numa Kombi e viajam de cidade a cidade no interior do Rio fazendo um show de mulher gorila – coisa que existia antigamente, e hoje parece em desuso. Nele, uma bela jovem ‘se transforma’ em gorila. A irmã mais velha é a bela jovem, e a mais nova, por forças de circunstâncias, veste a roupa de gorila e aterroriza o público pagante.
Há um dialogo, aparentemente involuntário até com o conto Enoch e o Gorila, de Flannery O’Connor (que mais tarde seria expandido no romance Sangue Sábio), que fala sobre a perda da inocência. Ao contrário da escritora norte-americana, no entanto, a dupla Bragança e Meliande não é moralizadora em sua obra, pelo contrário, o filme é bastante libertário, no sentido, de jogar essas duas personagens na estrada – que pode ser uma metáfora da vida – e deixa-las buscar a si mesmas. Essa busca, é claro, não precisa chegar a lugar algum, e nesse road movie, as paradas pela estrada trazem novos elementos, novas experiências de vida para a dupla.
Como em A alegria, há uma melancolia doce das personagens. Elas parecem gostar de ser infelizes, a tristeza não as sufoca. Nesse filme, os personagens parecem mais reais do que aqueles do segundo da dupla. Nem sempre se entende o que elas dizem, a falta de ânimo parece ser tão grande na irmã mais nova que ela não tem força para articular o que diz – é a perfeita tradução da personagem que parece não saber o que busca da sua vida, se quer um lugar no mundo.
