02/09/2026
Documentário

Tancredo, a travessia

Primeiro-ministro, senador, governador e eleito Presidente da República - cargo que não assumiu por ter morrido -, o mineiro Tancredo Neves (1910-1985) é o protagonista deste documentário, que ouve diversos políticos e familiares e se utiliza de vasto material de arquivo. No Sesc Digital (até 20/2/2025).

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Delimitar a estatura de determinados políticos brasileiros na História é uma tarefa a que o documentarista carioca Silvio Tendler tem-se dedicado com frequência. Ao traçar o perfil de figuras como os presidentes Juscelino Jubitschek (Os anos JK, 1980) e João Goulart (Jango, 1984), ele deixou clara sua preferência pela investigação das particularidades do processo democrático brasileiro recente – tangenciado pelos militares e o golpe de 1964.
 
Ao voltar-se para Tancredo Neves (1910-1985) em Tancredo, a travessia, Tendler focaliza um político que, embora nunca tenha sido presidente (apesar de eleito indiretamente, morreu antes da posse), ocupou sempre um espaço privilegiado nos círculos do poder por mais de 40 anos.
 
Tendler procura assinalar não só a fibra deste homem sutil, mas de têmpera dura, negociador incansável, como enfatizar a vocação democrática em sua linha de conduta. Destaca, assim, seu apoio irredutível ao presidente Getúlio Vargas, de quem foi ministro, até o fim, negando-se a qualquer aventura golpista ou ruptura do processo democrático.
 
O mesmo faria em 1961 quando, a seguir à crise deflagrada pela renúncia do presidente Jânio Quadros e a resistência de alguns setores à posse do vice, João Goulart, negociou a instalação de um parlamentarismo-tampão, tornando-se primeiro-ministro. Com isso, obteve as condições necessárias à posse de Jango.
 
Utilizando-se de fartas imagens de arquivo, Tendler constrói uma biografia marcada por esse apego democrático, lembrando, entre outras coisas, que a proximidade pessoal entre Tancredo e o marechal Humberto Castelo Branco – primeiro presidente militar – não levou o político a apoiar o regime. Ao contrário, Tancredo, ao lado de Ulysses Guimarães, seria sempre um dos principais nomes da oposição civil aos militares, como um dos fundadores do MDB, germe do atual PMDB.
 
Sempre elogioso, o documentarista derrapa, às vezes, num rumo de quase santificação do “estadista” Tancredo, não abrindo no filme espaço para os críticos de seu estilo astucioso e de bastidores, que em sua vida não eram poucos.
 
Apesar desta opção, o filme tem grande valor tanto na solidez ao examinar a importância do político na história recente como em dar voz ao seu neto, o senador Aécio Neves, quando denuncia o que considera negligência médica na morte do avô. Um tema espinhoso, polêmico, nem sempre devidamente abordado, e aqui ganhando um foro de indiscutível autoridade, pela proximidade do denunciante dos fatos ocorridos entre o Hospital de Base de Brasília e o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas em São Paulo, onde Tancredo morreu, em 21 de abril de 1985, depois de sete operações.
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