Concorrente ao Urso de Ouro no Festival de Berlim 2011, o drama Se não nós, quem?, de Andres Veiel, poderia muito bem ser assistido em conjunto com a série Carlos, de Olivier Assayas, e Bom dia, noite, do italiano Marco Bellocchio. Cada uma a seu modo, estas produções capturam como a energia juvenil de transformar o mundo da década de 60 transformou-se, no espírito de alguns, num vertiginoso mergulho na violência e no terrorismo.
Em Se não nós, quem?, no entanto, é mais visível o sentido de desperdício de vidas e de talentos que apontaram, a princípio, em outras direções. No caso de Bernward Vesper (August Diehl) e Gudrun Ensslin (Lema Lauzemis), a chama que os acende é a literatura. Eles se encontram na universidade, se apaixonam e lançam uma pequena editora – que de saída compromete sua imagem ao relançar uma obra de Willi Vesper (Thomas Thieme), o controverso pai de Bernward, um declarado simpatizante do nazismo com quem o filho manteve, desde a infância, uma relação extremamente conturbada.
A presença de Willi captura uma das linhas narrativas de uma história que pretende, entre outras coisas, avaliar como a geração precedente participou do nazismo. Se Willi foi um explícito apoiador de Hitler em vários escritos, o pai de Gudrun, Helmut (Michael Wittenborn), por sua vez, lutou como soldado – o que a filha critica, enquanto ele insiste que não teve escolha.
A marca da polêmica retorna ao caminho de Bernward e Gudrun, tanto em seus projetos editoriais – que vão diversificar-se em literatura engajada, como as obras dos Panteras Negras – quanto em sua vida pessoal. Os dois acompanham o aparecimento do SPD, o partido social-democrata alemão, e a progressiva decepção de jovens esquerdistas com a aproximação do partido com expoentes da direita e até ex-nazistas.
Nesse quadro de decepção com a política tradicional, surgem aqueles que defendem uma ação direta e violenta. É o caso de Andreas Baader (Alexander Fehling), jovem que se infiltra no grupo e provoca uma violenta paixão em Gudrun.
Bernward e Gudrun, que sempre mantiveram uma relação aberta, embora tumultuada, finalmente encaram uma crise que parece definitiva, já que Baader volatiza todos os sentimentos de Gudrun, que por ele abandona tudo, inclusive o filho bebê, Felix.
O foco se fecha nessa progressiva destruição pessoal e familiar, apesar de pontuada pela História, a todo momento lembrada com a inserção de trechos de noticiários da época. Indiscutivelmente, o diretor Veiel não pretende recontar aqui toda a trajetória do famoso grupo terrorista Baader Meinhof, já que Ulrike Meinhof (Stephanie Stremler), sua fundadora e líder, mal aparece na trama. O tema foi objeto de outro drama, O Grupo Baader Meinhof, de Uli Edel, que representou a Alemanha na disputa do Oscar de filme estrangeiro em 2009.
O protagonista indiscutível é Bernward, que carrega em sua própria biografia as contradições da Alemanha de sua época, dividida entre a herança nazista e as incertezas da democracia da Alemanha Ocidental nos anos 70. Se o filme tem um mérito, é criar esta espécie de janela intimista para olhar as questões sociais, tecendo uma espécie de retrato de geração. E o faz com eficiência, embora com mão muito pesada.
Dois dos mais promissores jovens atores alemães, August Diehl e Alexander Fehling, participaram de Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino.
